domingo, 23 de julho de 2017

Defendeu Waldir!!! Valeu!!


Waldir Peres, com V e Z, como saiu no Futebol Cards
Hoje o mundo do futebol ficou mais triste: morreu Waldir Peres.


Waldir Peres foi responsável direto pela minha primeira comemoração como torcedor, quando com suas defesas durante o jogo e sua catimba nos pênaltis, levou o São Paulo ao título nacional de 1977. Lembro até hoje que, como não tínhamos TV, convenci meus avós paternos a me levarem para o restaurante de um clube perto de casa onde transmitiriam a final. Para uma criança que recém descobre o futebol, o primeiro título é algo inesquecível. E devo isso diretamente àquele goleiro careca cabeludo, que envergava uma clássica camisa cinza. 

No São Paulo campeão brasileiro de 1977
Antes disso, comigo ainda muito pequeno, Waldir  já tinha conquistado o campeonato paulista de 1975 ao defender incrivelmente os 3 pênaltis batidos pela Portuguesa na decisão. 

Depois de 1977, passei anos guardando escalações do São Paulo sempre começando com o nome dele. O São Paulo montou um memorável time no início dos anos 1980, quando se sagrou bi-campeão paulista e vice-campeão brasileiro e a escalação ficou pra sempre na minha memória: Waldir Peres, Getulio, Oscar, Dario Pereira e Airton (Marinho em 81); Almir, Heriberto (Everton) e Renato; Paulo César, Serginho e Zé Sérgio (Mario Sérgio).

Waldir Peres no São Paulo de 1981
Politizado, Waldir chegou a ser presidente do sindicato de jogadores e lutava por um calendário melhor para os jogadores. Com justiça, foi para as Copas de 1974, 78 e em 82, como titular daquele memorável esquadrão montado pelo Mestre Tele Santana. Embora muitos lembrem de sua falha contra a URSS, a forma como chegou à titularidade foi inquestionável. Valdir Peres teve atuações brilhantes na fase preparatória, incluindo dois amistosos contra a Alemanha Oc. Na primeira, disputada na casa alemã, Waldir defendeu dois pênaltis cobrados por Paul Breitner (https://www.youtube.com/watch?v=tXWW_dTewoY). Na segunda, no Maracanã, fez defesas sensacionais. 

Ficha técnica do Valdir no Futebol Cards, figurinhas de futebol no final dos anos 1970

Em 1984, numa fase de renovação, acabou saindo do São Paulo depois de quase 12 anos e 611 partidas, um recorde só superado posteriormente pelo Rogério Ceni. 

Enfim, Waldir Peres foi dos meus primeiros ídolos e sempre que jogava botão, adorava soltar um "defendeuuuu Valdiiiiiir" a cada defesa do meu goleiro. Só tenho a agradecer por cada defesa que embalou minha infância tricolor! Valeu  Waldir!! 


domingo, 14 de agosto de 2016

Rubgy na Rio 2016, onde toda forma de amor vale a pena

Eu, orgulhoso, ao lado da Isadora Cerullo, atleta olímpica e grande jogodora de rugby

Hoje darei um tempo do futebol para falar de uma bela história olímpica, que eu tive o prazer e a sorte de presenciar.

Estava no Rio de Janeiro para acompanhar as Olimpíadas, quando apareceu a oportunidade de assistir a um jogo de um esporte totalmente desconhecido por mim até então: rugby feminino. Pesquisando, descobri que a versão desse esporte na Olimpíada é mais simplificada e foi criada com o objetivo de popularizar o esporte. Contando com apenas 7 jogadores e com duração de dois tempos de 7 minutos, os times chegam a jogar duas vezes por dia e um torneio inteiro tem duração de 3 ou 4 dias.  Eu fui ver a terceira rodada inteira, com seis jogos seguidos. Com isso eu teria oportunidade de assistir, além das principais seleções como Nova Zelândia e Austrália, o jogo da seleção brasileira contra o Japão.

Contribuindo para o clima olímpico, levei uma bandeira dos refugiados para pendurar no estádio para dar maior visibilidade para esse tema tão importante no mundo atual, ainda mais quando Brasil fecha suas portas para receber refugiados sírios. No estádio, localizado no Centro Olímpico de Deodoro, além de bandeiras de diversos países, tinha uma com o famoso arco-íris que representa o movimento LGBT carregada por um grupo de torcedores sentado bem perto de onde estava. Achei legal essa galera nas arquibancadas, contribuindo para diversificar o ambiente. O Brasil jogou muito bem e conseguiu sua primeira vitória no torneio.

Ambiente da torcida celebrando a diversidade (foto: Paulo P. Burian)

Depois de um tempo, durante outras partidas que se seguiram, uma das jogadoras do Brasil apareceu naquela parte da arquibancada perto e foi saudada festivamente. A poucos metros de onde eu estava, pude percebi que a atleta era extremamente simpática e atendia a diversos pedido de fotos e autógrafos de fãs das mais diversas idades. Resolvi tietar também e fui lá cumprimenta-la. Na hora, descobri que se tratava da Isadora Cerullo, conhecida como Izzy. Além de simpática e ótima jogadora, ela tinha uma história interessante: filha de brasileiros, cresceu nos EUA e tem dupla nacionalidade. Já tinha feito cursos de biologia e direitos humanos e se preparava para ingressar em medicina nos EUA, quando soube que a Confederação Brasileira de Rugby (CBRu) estava convocando atletas pelo mundo que tivessem nacionalidade brasileira também para que formassem uma seleção local. Depois de refletir por 4 meses, ela resolveu largar a vida planejada nos EUA e veio para cá realizar o sonho de ser atleta olímpica [1]. Veio constituir a seleção brasileira e ainda faz parte do Niterói Rugby. Nesse processo, conheceu Marjorie Enya, gerente do time de rugby e com quem iniciou uma bela história de amor.

Momento do pedido em casamento (http://thebiglead.com/2016/08/09/brazilian-rugby-player-isadora-cerullo-gets-proposed-to-after-medal-ceremony/)

Na segunda-feira passada, dia seguinte aos jogos que assisti, o Brasil encerrou sua participação no rúgbi feminino com um honroso 9º lugar (fato que garantiu a participação do Brasil no circuito mundial) e, ao término, Izzy foi surpreendida por um inusitado pedido de casamento de sua namorada em plena instalação olímpica. Pedido aceito na hora e que teve ótima repercussão no mundo. Certamente a notícia de um fato como esse é algo a ser muito celebrado e entrou para a história dessa Olimpíada. Em um momento em que não só no Brasil mas no mundo, nos deparamos como uma onda conservadora, de seguidos atos de homofobia, xenobobia e racismo, histórias como essa nos fazem manter a esperança por um mundo melhor, como ela mesmo sentenciou:

"Toda essa visibilidade está dando um novo rosto ao Brasil. Por ser o país que está sediando os jogos, isso ajuda a abraçar essa mentalidade mais tolerante" [2]

Fiquei feliz de ter, de certa forma, testemunhado um momento importante não só para o esporte, mas para toda a sociedade. Que o amor vença a intolerância e o ódio.

Cena do jogo entre Brasil e Japão pela primeira fase (foto: Paulo P. Burian).


terça-feira, 12 de julho de 2016

Os imigrantes em uma casa portuguesa, com certeza: de Eusébio a Eder

Eusébio (fonte: https://ocaisdamemoria.com/2015/01/25/eusebio-faria-50-anos-de-idade/)

Finalmente a seleção de Portugal obteve um título em um grande torneio de futebol. Com uma campanha repleta de luta, muitos empates e que tinha em Cristiano Ronaldo sua grande esperança, o título acabou vindo da forma mais improvável: após perder seu craque no início do jogo, machucado após entrada dura de Payet, coube a Éder, reserva que tinha entrado no decorrer do jogo, a autoria do gol do título na prorrogação. 

Nascido em Guiné-Bissau, país de colonização portuguesa na África, Ederzito Antonio Macedo Lopez (seu nome de batismo), mudou-se com a família para Lisboa com apenas 3 anos e, diante das dificuldades financeiras dos pais, foi levado para um orfanato em Braga e depois em Coimbra, onde passou grande parte da infância e adolescência. Naturalizou-se português e começou a jogar futebol pelo Oliveira do Hospital, da 4ª Divisão de Portugal. Depois de passagens pelo Tourizense (2007), Acadêmica de Coimbra (2008 a 2012), Sporting Braga (2012 a 2015) e Swansea City (País de Gales), Eder acabou emprestado ao Lille, da França.

O belo gol decisivo de Eder colocou-o definitivamente para a história do futebol, fazendo justiça à seleção que despontou para o mundo há cinquenta anos, na Copa do Mundo de 1966 devido justamente a outro africano de nascimento: Eusébio, o Pantera Negra. E no voo de volta para Portugal, ao lado do cobiçado troféu, o elenco inteiro da seleção posava com uma foto do maior jogador da história de Portugal e um dos maiores de todos os tempos do futebol, numa bonita homenagem.

Elenco português campeão da Euro 2016 posando no avião de volta para seu país com o troféu e, na frente, o retrato de Eusébio (fonte: http://desporto.sapo.pt/futebol/euro_2016/artigo/2016/07/11/portugal-ja-esta-no-aviao-para-voltar-a-patria)

Nascido em Moçambique (na época colônia de Portugal), Eusébio defendeu Portugal na primeira participação em fase final da Copa do Mundo em 1966. Com protagonismo, dono de um arranque veloz e um poderoso chute a gol, Eusébio não apenas levou sua seleção ao terceiro lugar, mas também se sagrou artilheiro da competição com 9 gols marcados em 6 jogos. De quebra, ainda eliminou o Brasil logo na primeira fase e foi responsável pela maior virada na história das Copas: depois de ver a Coréia do Norte abrir 3 x 0 contra Portugal nas quartas-de-final, com 4 gols de Eusébio, Portugal virou para 5 x 3 e se classificou para a semifinal.

Depois de iniciar a carreira em Moçambique, foi para o Benfica e permaneceu lá por aproximadamente 15 anos, levando o clube encarnado de Lisboa ao auge entre 1960 e 1975, período em que conquistou 11 Campeonatos Portugueses, 5 Taças de Portugal, 1 Taça dos Campeões Europeus (atual Champions League), e ajudou a alcançar mais três finais da Taça dos Campeões Europeus (1962-1963, 1964-1965 e 1967-1968). Foi o artilheiro da Taça dos Campeões Europeus em 1965, 1966 e 1968. Ganhou ainda a Bola de Prata sete vezes (recorde nacional) em 1964, 1965, 1966, 1967, 1968, 1970 e 1973. Foi o primeiro jogador a ganhar a Bola de Ouro, em 1968, façanha que mais tarde repetiu em 1973. Ganhou ainda a Bola de Ouro em 1965 e ficou em segundo lugar na atribuição da mesma em 1962 e 1966.

Com uma carreira dessas, Eusébio foi homenageado das mais diversas formas, como a estátua em frente ao Estádio da Luz, do Benfica, e também por diversas canções. A primeira delas foi Eusébio, gravada pelo grupo Sheiks, uma espécie de Beatles portugueses formada por Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Edmundo Silva e Fernando Chaby, logo após a Copa do Mundo de 1966, para celebrar o sucesso de "Eusébio e companhia" (como dizia a letra). “Foi uma proposta da [editora] Valentim de Carvalho”, recorda Carlos Mendes. “Tudo feito no estúdio, improvisado”. São dois minutos de canção. Uma celebração instantânea: “Como o grupo estava bastante entrosado, construíamos as letras e a música diretamente no estúdio”, diz Carlos Mendes [1]. Vale a pena conhecer: https://www.youtube.com/watch?v=i12wX4-o444

Três anos depois, a homenageia veio com O joelho de Eusébio, do Conjunto sem Nome, uma espécie de marchinha que aborda, além das qualidades do craque, as inúmeras lesões sofridas ao longo de sua carreira, resultado de entradas violentas dos adversários: “O joelho do Eusébio fez o mundo estremecer / Mas o Eusébio, tem joelho ‘inda' para dar e vender (...)”. Interessante que até “o menisco do Eusébio” era personagem na canção, representando “o menisco da saúde”: https://youtu.be/tCW46u2ayn8

Na década de 1980, outro grupo português chamado Salada de Frutas, famoso por canções com sonoridade new wave que marcaram aquela época também o homenageou na canção Se cá nevasse: "Se o Eusébio ainda jogasse / Ai que fintas ele faria um dia": https://www.youtube.com/watch?v=0Td-LHTPXkM

Em 2007 surgiu  uma banda galesa que levava o nome de Eusébio em sua homenagem, e lançou, naquele ano, o disco Beth yw Hyn. Mais recentemente, em 2011, a homenagem veio em forma instrumental com o guitarrista Rui Carvalho, conhecido como Filho da Mãe, que nos seu disco de estréia incluiu uma música chamada Eusébio no deserto. De acordo com Rui Carvalho, ele quis refletir o que o Eusébio tem do ser português, mesmo tendo nascido em Moçambique: “provavelmente mais português que qualquer português de que me possa lembrar”. E completa: “coloquei-o no deserto, um deserto que será mais próximo do imaginário cowboy. O tema é um blues acelerado, mas tem ali umas fintas pelo meio e qualquer coisa que o liga a Portugal".

Enfim, todas as homenagens prestadas em forma de músicas para Eusébio são mais que merecidas para quem foi um dos maiores craques do futebol de todos os tempoos. E o fato de que, 50 anos depois da Copa de 1966, o gol que deu o título mais importante de sua história para Portugal ter sido de outro jogador nascido na África não só é bastante representativo, mas serve também como uma legítima homenagem. Não é à toa que Cristiano Ronaldo dedicou o título aos imigrantes também: “É um troféu para todos os portugueses, para todos os imigrantes, todas as pessoas que acreditaram em nós. Estou muito feliz e muito orgulhoso”

Que esse gol de Eder sirva para relembrar a importância não só de Eusébio para o futebol, mas sim de todos imigrantes no mundo. 

Paulo Burian

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O perigo alemão na semifinal

Lance em que o goleiro alemão Schumacher atingiu seriamente o francês Battiston na semifinal da Copa do Mundo de 1982 (fonte: http://www.otempo.com.br/superfc/alemanha-e-fran%C3%A7a-se-enfrentaram-tr%C3%AAs-vezes-em-copa-1.876157)

Hoje Portugal eliminou País de Gales e agora aguarda para ver quem será seu adversário na final entre França e Alemanha, duelo que remete a semifinais memoráveis em Copas do Mundo da década de 1980, quando por duas vezes a Alemanha eliminou a França e chegou a final. Em 1982, na Espanha, proporcionaram um dos jogos mais emocionantes da história das Copas, com uma vitória da selelção alemã obtida somente nos pênaltis após um empate de 1 x 1 no jogo e que terminou 3 x 3 após a prorrogação e só foi decidida nos pênaltis: https://www.youtube.com/watch?v=qBCf-r1ACc4

Difícil fazer qualquer prognóstico, mas a título de curiosidade, vale lembrarmos do histórico alemão em jogos contra o país anfitrião (como a França agora) em semifinais dos principais torneios (Euro e Copa do Mundo). A julgar por este retrospecto, a França corre sério risco. E não estou falando com base “apenas” no fatídico 7 x 1 da Copa do Mundo de 2014, quando o Brasil se deparou com a Alemanha nessa fase e teve seu maior vexame em toda sua história no futebol. O retrospecto da equipe germânica nessa etapa diante de donos da casa é de fato assustador para o time da casa.

Na história da Euro a Alemanha enfrentou os donos da casa em três oportunidades, e teve sucesso em todas. Em 1972 a seleção alemã enfrentou a anfitriã Bélgica e despachou-a com uma vitória de 2 x 1, com dois gols do artilheiro Muller para chegar à final e faturar o título diante da URSS com uma vitória de 3 x 0.

Oito anos depois, até poderia novamente a Alemanha enfrentar a anfitriã, mas o regulamento daquela Euro determinava que dos dois grupos semifinalista, os primeiros disputariam direto a final e os segundos colocados jogariam a disputa de terceiro, sem que ocorresse uma semifinal. Se o regulamento fosse o comum, a Itália, anfitriã e segunda colocada de seu grupo teria se deparado com a Alemanha.

Mas o feliz histórico alemão continuou em 1992, na Euro disputada na Suécia. Dessa vez, vitória alemã frente os suecos por 3 x 2 com  gols de Hasller e Riedle. Na final, acabou perdendo o título para a surpreendente Dinamarca. Vale a pena ver aqui os gols da fase final dessa Euro: https://www.youtube.com/watch?v=_foryfWWWxo

A terceira semifinal em que os alemães se depararam com os donos da casa foi em 1996 na Inglaterra. E novamente, eliminaram os donos da casa, dessa vez na disputa por pênaltis após um empate de 1x1 no tempo normal e na prorrogação (com gol de Kuntz para a Alemanha): https://www.youtube.com/watch?v=izCKtubriis

E esse feliz retrospecto contra seleções anfitriãs em semifinais praticamente se repete também nas Copas do Mundo, exceção feita há muito tempo, na Copa da Suécia, quando perdeu para os donos da casa por 3 x 1 em Gotemburgo. De  lá pra cá, em outras duas oportunidades enfrentou os anfitriões, e com sucesso em ambas. Além do famoso 7 x 1 em 2014 contra o Brasil, doze anos antes ela enfrentou a Coréia do Sul em Seul também da semifinal com uma vitória por um a zero, para depois perder do Brasil na final.

Curiosamente, esse retrospecto inverteu quando a Alemanha foi anfitriã, já que perdeu jogos na semifinal jogando em casa, seja na Euro (em 1988 contra a Holanda), seja na Copa do Mundo (2006 contra a Itália).

De qualquer forma, o retrospecto alemão contra donas da casa nas semifinais em torneios importantes desde 1972 é para deixar os franceses com a barba de molho: foram cinco vitórias (três na Euro e duas na Copa do Mundo) contra apenas uma derrota no longínquo 1958 na Suécia.

Mas, de qualquer forma, tabus no futebol existem para serem quebrados. A própria Alemanha, para chegar na final, teve que quebrar tabu diante da Itália. Quem sabe não seja a hora da França acabar com esse retrospecto?


Paulo Burian

domingo, 3 de julho de 2016

Maurício Pereira: música e futebol

Maurício Pereira no show no Teatrol Paiol em janeiro de 2016 em Curitiba 

Em janeiro deste ano tive a oportunidade de assistir a um ótimo show do Maurício Pereira (músico independente que despontou quando fez dupla com André Abujamra em Os Mulheres Negras, no final dos anos 1980) no agradável Teatro Paiol, em Curitiba.

Trata-se de um músico que me traz boas lembranças da época da Universidade, quando havia uma imensa dificuldade em descobrir sons alternativos. Lembro de shows memoráveis dos Mulheres Negras em Campinas. Juntamente com André Abujamra, eles cobriam uma lacuna em termos de músicas mais inteligentes, fora do mainstream dominante das rádios.

E foi com esse espírito que fui ao show dele, levando inclusive disco e uma fita K7 pirata dos Mulheres Negras para autografar no final. E de fato o show valeu muito a pena. Entre as diversas músicas que tocou, concentrando-se principalmente no último disco, o criativo “Pra onde que eu tava indo”, ele apresentou uma que acabou não entrando na gravação final, cuja letra fala diretamente futebol.  Trata-se de “Quatro dois Quatro”, composta antes da Copa de 2014 (antes do 7 a 1, como ele mesmo frisou).

De acordo com depoimento dele durante o show, o futebol é ótima matéria-prima para filosofar sobre a vida. E foi com esse pensamento que escreveu a seguinte letra (transcrita aqui a partir da gravação que fiz no show, já que não consegui encontrar essa letra em algum site oficial e, portanto, provavelmente pode ter algum erro).

Jogar...e deixar jogar
Cadenciar.
Pra apanhar essa bola sem pressa
Buscar espaços, se apresentar
Sonhar e deixar sonhar
Sentir que tudo tem seu tempo
Deslumbrar
E prever o futuro
Levantar a cabeça e imaginar
Imaginar saber
Escrever para rolar
Fazer com a bola um risco no céu
E deixar a beleza correr
Todo esse risco
Beber com o infinito
Ralar a camisa
Brigar, romper, voltar
Sempre amadores, sempre juvenis
Atirar todo dinheiro pela janela e depois sair correndo atrás dele feito louco
E sempre sempre sempre ser a primeira vez sempre sempre
Perder sem medo de perder
Ganhar sem medo de perder
Perder sem medo de ganhar
Qualquer que seja o placar
Sentir, assumir e poder
E poder ...e poder chorar feito uma criança
É bola pra frente sem nostalgia nenhuma
Pois o coração é o nosso escudo
E um par de asas, o único peso que devemos carregar
Lá atrás, o goleiro faz o Sinal da cruz
E isso é o princípio de tudo
Achar a graça é a nossa missão
(narração de jogo)
Lá atrás, o goleiro faz o Sinal da cruz
E isso é o princípio de tudo
Achar a graça é a nossa missão

Tem uma gravação ao vivo no YouTube, junto com “Deixa eu te dizer”. Vale a pena ouvi-la para conhecer: https://www.youtube.com/watch?v=7srMVKRkO3c Quem sabe ele resolve gravá-la em algum próximo trabalho. Por enquanto, ficamos apenas com essa versão "pirata", digamos assim.

Esse paralelo que ele faz com o futebol não é de hoje. Em uma longa e excelente entrevista para o site Gafieiras (gafieiras.com.br), em 2001, corinthiano, ele diversas vezes, faz  referências ao futebol:

"Puta, vi o Ademir da Guia, o Pelé, o Rivelino. Sou do tempo do 4-2-4, que os pontas eram abertos, seu time perdia de 4 a 0 mas você ia para casa com tesão, “Porra, o Corinthians tomou de quatro, mas foi o Pelé que fez os quatro gols” [1].

Nessa mesma entrevista em conta que no início dos anos 1980, foi trabalhar na LC, que vendia um esquema de gravação para as rádios. A responsabilidade dele era escrever o texto do mês seguinte de uma FM que estavam criando. Nisso ele arriscou que o São Paulo seria campeão brasileiro contra o Grêmio em 1981, afinal tinha um time muito mais técnico. E errou. Segundo ele, esse foi a única bola fora dele nesse período:

"São Paulo ia jogar com o Grêmio no Morumbi. Ah! O São Paulo era muito melhor. O Grêmio tinha aqueles brutamontes e o São Paulo um monte de craques. “São Paulo foi campeão brasileiro ontem no Morumbi”

Demonstrando que é um artista com visão sobre o futebol, logo após a emblemática derrota frente à Alemanha na última Copa, compartilhou na sua página do Facebook uma análise bem sensata do Tostão, craque da seleção de 70, médico e que se revelou excelente colunista de futebol, em que lamenta a mentalidade vigente do atrasado futebol brasileiro dos últimos anos.

Enfim, bom saber que artistas criativos e de vanguarda como o Maurício Pereira também se preocupam de forma inteligente com o futebol brasileiro, afinal, como ele mesmo diz, achar a graça é a nossa missão.

Notas: [1] http://gafieiras.com.br/entrevistas/mauricio-pereira/8/


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Os pequenos grandes islandeses

O zagueiro da seleção da Islândia, Gunnarsson, liderando o grito de guerra da seleção junto à torcida
(fonte: https://esportes.terra.com.br/lance/gunnarsson-o-lider-da-islandia-a-selecao-sensacao-da-eurocopa,0cbbd8b19c51e05402d9e71e98d8b54c2y3mdlv0.html)

No próximo domingo, na última partida das quartas-de-final da Euro 2016, a França, dona da casa, enfrenta a surpreendente Islândia, que independente do resultado, já terá escrito seu nome na história.

Para muitos, a campanha da Islândia é uma imensa surpresa. Afinal, imaginava-se que o fato de ter passado das eliminatórias já seria o auge de seu time. Também pudera: um país com cerca de 323.000 habitantes apenas, isolado quase no círculo polar ártico, que nunca tinha chegado na fase final de algum torneio importante, e na sua primeira vez, não somente passa invicto da fase de grupos, como elimina a tradicionalíssima seleção inglesa nas oitavas-de-final.

Mas embora surpreendente, o fato é que a seleção de futebol da Islândia já vinha ensaiando uma surpresa dessas. Nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014 por muito pouco não conseguiram uma vaga. Depois de ficarem em segundo lugar no grupo, a frente de seleções mais tradicionais como Eslovênia e Noruega, acabaram perdendo a vaga na repescagem para a Croácia. Nunca tinham chegado tão longe.

Dois anos depois, surpreenderam novamente ao se classificar para a Euro, eliminando a seleção da Holanda com uma vitória em Amsterdã. Os islandeses não estavam para brincadeira: https://www.youtube.com/watch?v=3sLfAxSmuGk

E agora, definitivamente, a Islândia virou a sensação. Embora sem contar com grandes craques mas tendo como ponto forte a organização tática, pode-se destacar o zagueiro Gunnarsson, zagueiro barbudo do Cardiff e capitão do time. Interessante que ele quase virou jogador de handebol, muito popular no país e que deu à Islândia uma medalha de prata olímpica em 2004. Seu pai jogou pela seleção nacional deste esporte e tem um irmão que joga atualmente no handebol alemão. 

Além do time, a torcida tem sido um show à parte. Contando com cerca de 8% da população do país na França, os islandeses têm um show com uma coreografia acompanhada de um grito viking “Hu-hu-hu” (https://www.youtube.com/watch?v=rhyZN9KGNpM). Se nos empates frente a Portugal e Hungria, o time já foi celebrado, as vitórias diante da Áustria e da Inglaterra foram motivos de êxtase: https://www.youtube.com/watch?v=EhRLgAt3INc

Muita gente se pergunta como um país com uma população tão pequena e sem craques reconhecidos (embora todos joguem em times fora do país) pode ir tão longe. O incrível é que esse sucesso não se restringe ao futebol. Além do time de handebol da Islândia, vice-campeão olímpico, o pequeno país gelado tem, incrivelmente, se destacado na música também.

Além da já famosa e bem conhecida Bjork, diversos outros músicos da Islândia têm se destacado nos últimos tempos. No campo da música eletrônica, podemos citar GusGus (cujo nome vem de cuscuz). Em relação ao indie-rock, Of Monsters and Men merece ser citado, inclusive por terem passado pelo Brasil no Lollapalloza de 2016 e terem feito muito sucesso (o show está disponível na íntegra em https://www.youtube.com/watch?v=0yeD8kHqr8w) . Além de bons de músicas como a já bastante conhecida Mountain Sound (https://www.youtube.com/watch?v=Uc7Z0G4znAA), curiosamente o líder da banda relatou, recentemente, elogios a forma como torcedores de futebol se portaram em um dos seus shows em Manchester (Inglaterrra):

"We were playing in Manchester, England and there were these four big bald football hooligan types in the audience all dressed in United football outfits. Not our typical audience members but they started singing with one of our quiet songs in this football chant kind of way with their deep voices and accents. It was hilarious because their voices cut through everything. We could hear their singing growl in our in-ear monitors which is kind of amazing considering we are listening to the whole band in our monitor mix. They were definitely fans because once they started singing they kept going through our whole performance and knew every song. In between songs we could hear them screaming our names in that special kind of growl. We felt like football stars for a moment. Very funny moment."

Além de Bjork, GusGus e Of Monsters and Men, outra excelente banda é Sigur Ros. Com uma música de difícil definição, com uma sonoridade rica, mesclando sons instrumentais com psicoldélicos, Sigur Ros conseguiu despontou para o mundo com o disco Ágætis Byrjun (que significa “Um bom começo”), selecionado com um dos 1001 discos para ouvir antes de morrer naquele famoso livro. E a prova de que os islandeses estão mesmo antenados é o belo clipe oficial de “Viðrar vel til loftárás” que une futebol, música e luta contra homofobia. Vale a pena conferir: https://www.youtube.com/watch?v=akYuy2FMQk4


Não sei até onde vai a Islândia com seu futebol, mas a julgar por toda sua contribuição não só para o futebol da Eurocopa 2016, mas para a música no mundo todo há algum tempo, minha torcida é para que o mundo conheça cada vez mais a Islândia.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Ruud Gullit, o legítimo herdeiro de Cruyff (nos gramados e fora dele)

Foto da edição da Placar com a retrospectiva de 1988, com Ruud Gullit beijando o troféu.

A história do futebol é repleta de casos em de grandes craques que não conquistam títulos relevantes por suas seleções e Cruyff foi um desses. Embora tenha sido o responsável direto por colocar a Holanda no mapa da bola, ficou com o vice-campeonato da Copa do Mundo em 1974, parou na semifinal da Eurocopa de 1976 diante da Tchecoslováquia e em 1978 abriu mão de participar da Copa do Mundo quando sua geração da Holanda ficou novamente com o vice-campeonato.

Mas no caso específico da Holanda, a justiça foi feita com a geração seguinte, liderada por Ruud Gullit, verdadeiro herdeiro do futebol de Cruyff no time. 

Craque que se consagrou entre final dos anos 1980 e início dos 1990, o polivalente jogador, famoso por sua cabeleira, passou pelo Feyenoord justamente quando Cruyff se despedia dos gramados no mesmo time na temporada 1982-83. Anos mais tarde, já consagrado, Gullit relatou esse momento:

"Minha primeira recordação real no futebol foi no mundial de 1974, o gol de Johan Cruijff sobre o Brasil. É algo que sempre levo em mente. Cruyff me ensinou muitíssimo. Coincidi com ele em sua última temporada como jogador, no Feyenoord, no início dos anos 80. Era inteligentíssimo. Taticamente estava acima do resto.(...) Eu o olhava e pensava: 'Tem 38 anos e é muito bom. O que deve ter sido jogar com este homem quando tinha 24?' E a verdade é que nunca tive noção da resposta".[1]

Em 1988, ao lado de craques como Van Basten e Rijkaard (com quem ganhou também o campeonato italiano daquele ano), Gullit levou a seleção holandesa sob o comando de Rinus Michels (o mesmo técnico de 1974) ao título da Eurocopa, ironicamente disputada na então Alemanha Ocidental, a mesma que sediou a Copa do Mundo de 1974, depois de despachar a dona da casa na semifinal. 

Após vencer a União Soviética na final por 2 x 0 com gols de Gullit e Van Basten (esse último, um golaço), a Holanda enfim comemorou um grande título ao som de We are de Champions no estádio. No youtube tem um bom documentário sobre esse jogo: https://www.youtube.com/watch?v=0ufZKwBG-ZI

Os títulos que Cruyff não conseguiu sobraram na carreira de Ruud Gullit em todos os times que jogou (Haarlem, Feyenoord, PSV, Milan, Sampdoria e Chelsea - onde foi ao mesmo tempo técnico e jogador). Dotado de muitas qualidades técnicas e excelente conhecimento tático, colecionou troféus particulares também. Em 1987, já no vitorioso Milan daquela época, Gullit foi eleito o melhor jogador da Europa [2]. Politizado como era, preparou um discurso em que homenageava Nelson Mandela, que se encontrava ainda preso e incomunicável pelo regime do Apartheid. O sua atitude política toma uma dimensão maior ao lembrarmos que os responsáveis pelo regime de segregação racial em vigor na África do Sul tinha sido imposto pelos boêres (ou africâners), descendentes de holandeses que colonizaram aquele país.

Infelizmente sua fala foi censurada, mas mesmo assim ele dedicou seu prêmio ao Mandela durante os agradecimentos e entregou uma cópia do discurso que pretendia fazer a cada um dos presentes na cerimônia. E sua luta anti-apartheid continuou na música. No anos seguinte, em 1988, ele participou da gravação do reggae South Africa em prol da causa anti-apartheid da banda Revelation Time, que alcançou o terceiro lugar nas paradas holandesas. Vale a pena conferir: https://www.youtube.com/watch?v=iDDHiJqsQas. Gullit não era um iniciante na música. Quatro anos antes já havia gravado a música Not the Dancing Kind: https://www.youtube.com/watch?v=RhmJFOa4RgQ

Em 1990, depois de 27 anos preso, finalmente Nelson Mandela foi libertado e posteriormente conseguiu ser eleito presidente da África do Sul, terminando o regime segregacionista. Ciente da ajuda que recebeu de Gullit não só pelo discurso, mas por doações que o craque holandês fazia à causa, em 1997 Mandela concedeu ao jogador a Ordem do Comendador da Boa Esperança, maior condecoração na África do Sul, no First Nacional Bank (FNB) Stadium, onde a seleção da África do Sul (Bafana-Bafana) enfrentou a Holanda.[3]

Encontro de Gullit com Mandela

Ruud Gullit foi, de fato, merecedor dessa homenagem. Ao longo da sua vitoriosa carreira sempre se preocupou em lutar contra o racismo e pelo fim do regime de segregação racial. Gullit não fez justiça apenas nos gramados ao levar a Holanda ao título europeu, mas conseguiu ter brilho maior ainda na sua luta por uma sociedade mais justa. Que ele sirva de inspiração para os craques do mundo de hoje. 


Notas:
[1] Informação obtida na página http://www.superesportes.com.br/app/1,1128/1,1128,1,1091/noticia-mundial-de-clubes/1,1128,1,200/1,200,1,131/1,131,1,307/1,307,1,130/1,130,1,200/1,200,19,88/19,88,1,17/1,17,1,15/1,15,20,25/20,25,1,131/1,131,1,307/1,307,1,188/1,188,20,17/20,17,1,692/1,692,7,348/7,348,1,522/2012/06/05/noticia_por_onde_anda,218765/, que divulgou a entrevista original fornecida à revista France football
[2] Naquela época, não havia eleição oficial da FIFA para melhor do mundo em cada ano, mas as eleições da revista France Football que resultava no prêmio Bola de Ouro (França) tinha a representatividade de eleger o melhor jogador europeu. A partir de 2010, sua premiação foi unificada com a da FIFA. Além da Bola de Ouro, a revista World Soccer (Inglaterra) também faz eleição representativa desde 1982. Ruud Gullit levou a Bola de Ouro em 1987 e duas vezes considerado o melhor europeu pela World Soccer (1987 e 1989).
[3] Paper: “Ruud Gullit. Soccer, Racism and Apartheid” ISSN - 1481-3440 obtido em http://www.anthroglobe.org/docs/Racism-soccer-South%20Africat.htm