sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A pequena grande Samoa Americana e suas lições ao mundo

Jaiyah Saelua, entrando em campo pela Samo Americana 

Outro dia assisti ao filme-documentário “The Next Goal Wins” (http://nextgoalwinsmovie.com/), que trata da história recente da seleção de futebol da Samoa Americana, um pequeno pais (ainda que dependente dos EUA) na Oceania e que, até pouco tempo atrás ocupava o último lugar no ranking da Fifa.

Ficha técnica do jogo contra Australia
Tendo como ponto de partida o jogo disputado no dia 11 de abril de 2001, quando sofreu uma incrível derrota de 31 x 0 contra a Austrália pelas eliminatórias para a Copa de 2002, o filme retrata a luta para que sua seleção, formada por jogadores amadores, saísse da incômoda situação de ser considerada a pior do mundo. Desde o fatídico resultado frente à Austrália (jogo em que 21 dos 22 convocados não puderam representa-la por terem outro passaporte e acabou reunindo às pressas jogadores com cerca de 15,16, 17 anos) até as eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014, disputada no final de 2011, foram disputados 30 jogos e nenhuma vitória, com 12 gols marcados e 229 sofridos.


Após mais uma pífia campanha em um torneio da Oceania em 2010, a federação local decidiu contratar um técnico de fora que pudesse dar um rumo àquele time e chegar, pelo menos, a uma vitória. Em 2011, chegou Thomas Rongen, um holandês, até então técnico da seleção sub-20 dos EUA, único que se candidatou ao peculiar emprego.

O time começou a treinar de forma mais organizada visando às eliminatórias para a Copa de 2014. No dia 22 de novembro de 2011, na primeira fase das eliminatórias na Oceania, em Ápia, Samoa, a seleção da Samoa Americana entra em campo para enfrentar Tonga e após abrir dois gols de vantagem, leva um e já sem fôlego, consegue segurar o resultado, comemorado como se fosse um verdadeiro título. Para os desavisados, este jogo pode não representar nada, mas para a pequena Samoa Americana representou a primeira vitória daquela seleção e entrou para a história do futebol mundial. Após um empate no segundo jogo contra Ilhas Cook e uma derrota com um gol no último minuto frente à vizinha Samoa, a Samoa Americana pôde, mesmo eliminada, comemorar o fato de, pela primeira vez, ter jogado de igual para igual com seus adversários.

Veja os gols do jogo heróico jogo contra Tonga: 

O filme “The Next Goals Wins”, muito bem dirigido, consegue demonstrar esse heroísmo de seus protagonistas através de várias histórias individuais que estão por trás da epopeia deste verdadeiro exército de Brancaleone do futebol.

Pode-se destacar, por exemplo, o técnico Thomas Rongen, que passa a se identificar com aquele simpático grupo de jogadores e acaba encontrando naquela missão uma nova razão de viver após passar por um drama pessoal  ao perder uma filha em um acidente de carro e talvez, por isso, tenha decidido recomeçar a vida na longínqua Samoa Americana.

Outro que merece atenção especial é o goleiro Nicky Salapu .  Trata-se do mesmo que, 10 anos antes, tinha levado 31 gols da Austrália (e feito defesas importantes, diga-se) e convivia, desde então com esse pesadelo. Na tentativa de esquecer, ele muda-se para os EUA, mas acaba sucumbindo aos apelos para retornar ao selecionado de seu país, disposto a apagar o que ele considerava um vexame e reescrever a história.

Mas o maior destaque de toda essa trajetória fica por conta de Johnny/Jaiyah Saelua. Trata-se de uma jovem zagueira que foi o primeiro transexual a disputar uma partida de futebol oficial. Registrado como Johnny, teve que jogador futebol masculino desde os 15 anos e naquela vitória contra Tonga acabou eleita a melhor em campo. Antes desse jogo, já adotava o nome Jaiyah. Em entrevista ao site Mais Futebol, de Portugal, em dezembro de 2011, Jaiyat declarou:

A Samoa Americana, assim como outros países do Pacífico com cultura polinésia, aceitam os fa’afafine. São pessoas que nascem homens, mas que se sentem mulheres desde muito cedo. É algo aceite em quase todos os aspectos da sociedade, embora no esporte seja um pouco mais difícil”.

O filme citado emociona como a questão de ser fa’afafine (o que para leigos seria transexual) é totalmente natural por todos em Samoa Americana. Trata-se de uma não-questão, algo que não causa estranhamento entre os demais jogadores e torcedores locais. O técnico holandês salienta a importância dela para o ambiente do time em termos de respeito e união do grupo. E lamenta que isso não aconteça no resto do mundo: “Na verdade, tivemos uma mulher atuando como zagueiro central. Você consegue imaginar isso na Inglaterra ou na Espanha?”

Nas entrevistas de Jaiyah Saelua, fica muito evidente a sua felicidade em jogar em um ambiente familiar, em que se sente tão bem. Ambiente este que infelizmente ela não encontrou quando tentou jogar futebol no Havaí, onde foi estudar artes cênicas.

De fato, é de se emocionar que em um país em que seus jogadores buscam em campo nada mais do que jogar com dignidade, seja palco de uma história exemplar para o mundo ocidental, inclusive o Brasil de tantos títulos no futebol, mas que certamente ainda imaturo para lidar com questões de respeito às diferenças, como determinados candidatos deixam tão evidente.


Com essa história, a pequena Samoa Americana, de heróis como Jaiyah e Salapu ganhou definitivamente meu respeito e minha torcida. Que seja um exemplo para o mundo. 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O dia em que Pires e Mococa calaram o Maracanã

Mococa disputando bola com Carpegianni no meio campo (foto de Rodolpho Machado, in Placar nº 503). 

Passei minha infância, fase em que mais me envolvi emocionalmente com o futebol, entre o final dos anos 70 e início dos anos 80, período que coincidiu com a época das vacas magras para o Palmeiras.

Mas isso não significa que não houve nada que a torcida palmeirense pudesse celebrar naquela época.  E pra mim, um jogo em especial foi marcante e faço questão de lembrá-lo aqui como forma de homenagear o centenário do velho Palestra Itália.

No dia 8 de dezembro de 1979, o Palmeiras, dirigido por Telê Santana (último clube antes de assumir a seleção) entrou em campo no Maracanã para enfrentar o Flamengo em jogo que valia vaga na semifinal do campeonato brasileiro de 1979 (que contou com o regulamento mais esdrúxulo de todos os tempos, mas isso são outros quinhentos). Diante de um público de mais de 112.000 pagantes, teve pela frente o Flamengo de Zico, Adílio, Junior e Tita, que tinha conquistado dois títulos estaduais no mesmo ano (isso mesmo!) e se apresentava como favorito, afinal já era um esboço daquele que viria ser campeão mundial em 1981.  Pelo lado alviverde despontava jogadores mais jovens e menos renomados como Jorginho, César (não o “maluco”) e Mococa, acompanhados de alguns mais experientes como Pires, Pedrinho e Jorge Mendonça.

Dias antes, já prevendo um jogo decisivo em que o Palmeiras podia entrar com a vantagem do empate, Telê Santana foi categórico:

(foto de José Pinto, Revista Placar, 502)


“não pensem que para garantir o empate meu time vai se retrancar. Nada disso. Para mim, a melhor maneira de se chegar ao empate, sem passar sustos, é entrar para ganhar.” [1]


E em campo, o que se viu foi exatamente isso. Se considerando apenas a fama dos jogadores, o Flamengo era considerado favorito, dentro de campo o que se viu foi um massacre alviverde. Jogando com simplicidade, naquela tarde o Palmeiras dominou completamente o adversário, executou lançamentos precisos, toques rápidos e triangulações perfeitas.




Com Cantarelli batido, César, o 9 palmeirense perdeu este gol incrível, chutando no travessão. Podia ter sido mais (foto de  Ignácio Ferreira, in Placar nº 503, dezembro de 1979)

Ressaltando aspectos como o posicionamento do Pires, junto com Mococa na entrada de área; os deslocamentos laterais executados pelo Jorge Mendonça e pelo centroavante César  abrido espaços para os laterais Rosemiro e Pedrinho; as inversões dos pontas Baroninho e Jorginho; e as jogadas ensaiadas, a Revista Placar (principal meio de comunicação esportiva escrita naquela época) ressaltou o verdadeiro baile tático que o time de Telê Santana aplicou sobre o time rubro-negro, comandado pelo, até então, técnico da seleção brasileira, Claudio Coutinho. Vale a pena ver os melhores momentos dessa verdadeira aula de futebol. 

www.youtube.com/watch?v=B-3MkCZ3hNU

No final, uma agressão covarde do Beijoca (atacante flamenguista) acabou sendo um retrato do jogo em que a goleada categórica (4 x 1) foi apenas uma consequência diante da dimensão da superioridade palmeirense naquele dia. Eu, que estava naquele dia no Rio de Janeiro, lembro  não só do jogo, mas também da sua repercussão.  


Ficha técnica do jogo (Revista Placar nº 503)
Na semifinal, apesar do esforço, o time do Palmeiras não conseguiu superar o forte time do Internacional e acabou eliminado. Mesmo sem o título, em enquete feita com 221 jornalistas brasileiros ainda naquele mês, nada menos do que 197 indicaram o então técnico palmeirense Telê Santana como o melhor técnico brasileiro, credenciando-o para assumir a seleção brasileira no início de fevereiro de 1980. 


Se não serviu para levar o Palmeiras ao título, certamente aquele time deu uma contribuição fundamental ao futebol brasileiro ao servir para colocar o Mestre Telê Santana em justa evidência, culminando no brilhante trabalho frente à seleção após aquela a Copa de 1982. Valeu Palmeiras! O futebol brasileiro agradece! Fica aqui a imagem do primeiro gol (na falta de Youtube, Placar publicava os gols desta forma).
Primeiro gol em fotos de Ignácio Ferreira e Rodolpho Machado, in Placar nº 503.




[1] Entrevista à Revista Placar de 3 de dezembro de 1979.

domingo, 10 de agosto de 2014

Homenagem em dose dupla

Foto de Rodolpho Machado na revista Placar nº696, de 23 de setembro de 1983.

Na semana passada, no jogo no Maracanã contra o Goiás, o Fluminense prestou uma bela homenagem a uma das mais famosas duplas da história do futebol brasileiro que deu tantas alegrias à torcida nos anos 80: Assis e Washington (com direito a distribuição de máscaras deles para a torcida). O blog Futebol Sonoro aproveita para registrar também sua homenagem.

No início dos anos 80, quem dominava o cenário no futebol carioca e nacional era o Flamengo. Esse cenário mudou com a chegada de Washington e Assis ao Fluminense em 1983 após uma passagem vitoriosa de ambos pelo Atlético-PR, onde tinham se consagrado com um título estadual após 12 anos de jejum e levaram o time paranaense até a semifinal do Campeonato Brasileiro de 1982 (faltou muito pouco para não eliminar o Flamengo).

A chegada deles ao Flu ocorreu sem maiores alardes. O time carioca amargava anos sem conquistas e depositava suas parcas esperanças em contratações de jogadores menos conhecidos. Mas o time “deu liga”, a começar com a conquista da Taça Guanabara, que levou o time para a final do campeonato daquele ano. Em setembro de 1983, após a conquista da Taça Guanabara, a revista Placar já deu destaque a esta dupla com uma reportagem especial que iniciava da seguinte forma:

Um é paulista e o outro baiano, mas passariam perfeitamente por dois cariocas autênticos. Assis, 29 anos, e Washington, 23, chegaram ao Rio de Janeiro há pouco mais de dois meses e já assimilaram toda a malandragem que a cidade lhes podia ensinar. Juntos desde os tempos de Atlético Paranaense, eles combinam jogadas, armam esquemas particulares imprevisíveis e sabem como ninguém tirar partido da irritação do adversário. Resultado: conquistaram a Taça Guanabara defendendo um time, o Fluminense, que até eles chegarem estava totalmente desacreditado”.

A final do estadual foi disputada em um triangular com Bangu e Flamengo. Após um empate contra o Bangu, chegou ao jogo contra o Flamengo com a necessidade de ganhar para continuar na briga pelo título e eliminar o rival. O jogo seguiu empatado até os 45 minutos do 2º. tempo, quando Assis recebeu um lançamento de Delei, entrou na área e tocou na saída do goleiro Raul, fazendo o gol decisivo para o título do Flu. De tão marcante, a torcida tricolor passou a reverencia-lo com o canto “Re-cor-dar é viver...Assis acabou com vocês” (parafraseando a música “Recordar é viver, eu ontem sonhei com você”).  Vale a pena conferir a reportagem especial do Sportv sobre este jogo com depoimento de Delei (https://www.youtube.com/watch?v=w758fKWUGUc), assim como conferir o canto daquela torcida em jogo que comemorou o centenário do Fla x Flu (e presença de Assis): https://www.youtube.com/watch?v=RkuijwEqYSI.

Em 1984, novamente contra o Flamengo, Assis acabou repetindo a dose e o Flu saiu-se bicampeão (www.youtube.com/watch?v=0oqMQ_S8Bsg ).  Washington também costumava ser decisivo, como na final de 1985 (ano do tricampeonato) ao marcar um belo gol contra o Flamengo em jogo em que Assis estava de fora, contundido, jogo que mereceu uma reportagem especial na Globo, com relato do goleiro Paulo Vítor e o lateral Leandro, do Flamengo: https://www.youtube.com/watch?v=_4_s7cAOELs.

Como se não bastasse, nesse período a dupla – chamada de Casal 20 – levou o time ao título brasileiro em 1984 que veio em um empate sem gols contra o Vasco (após vitória de 1 x 0 com gol de Romerito). O Sportv fez uma reportagem especial de um jogo marcante daquela trajetória: a vitória sensacional na semifinal contra o Corinthians, fora de casa, por 2 x 0, com participação do Assis lembrando aquele jogo.

Enfim, entre 1983 e 85, aquele Fluminense conquistou o tricampeonato estadual e foi campeão brasileiro com um time que além do forte conjunto e do paraguaio Romerito (o craque do time), teve como um dos maiores símbolos o chamado Casal 20, totalmente identificado com o time e sua torcida.

Tal como foram unidos em campo, Washington e Assis acabaram falecendo em um curto intervalo de tempo (entre 25 de maio e 6 de julho), deixando um imenso pesar por parte da torcida do Atlético-PR e do Fluminense. Lembro que no dia em que Assis foi enterrado em Curitiba, simbolicamente caiu uma chuva torrencial. Até o céu estava triste.

Por tudo que construíram junto ao futebol, pelo que representaram principalmente para as torcidas do Atlético-PR e Fluminense, qualquer homenagem será pouca. Segue aqui o vídeo exibido no telão do Maracanã. É de se emocionar:

sábado, 26 de julho de 2014

Rubem Alves e a lógica do desenho animado no futebol


É sabido que Rubem Alves não sabia nada de futebol, não jogava, não torcia e tampouco conhecia algum jogador (exceto o Ronaldinho Gaúcho, por quem torcia devido à alegria que transmite enquanto joga). Entretanto, provocado por sua editora, em 2006 resolveu escrever um livro que tem esse esporte apaixonante como tema central: O Futebol levado ao Riso.

Trata-se, como ele mesmo definiu, de uma brincadeira, em que aborda de uma forma leve e pessoal a relação do futebol com diversos temas como religião, infância, guerra, matemática, e principalmente...torcida.

E através de seu afastamento em relação ao futebol conseguiu dar pistas interessantes das razões que o levaram a ser tão apaixonante quanto é.

“O futebol é o circo do mundo. Não há nenhum outro esporte que provoque tanta paixão, tanta alegria, tanta tristeza. O futebol dá sentido à vida de milhões de pessoas que, de outra forma, estariam condenadas ao tédio. É o assunto, nas manhãs de segunda-feira, em bares, escritórios, fábricas, taxis, construções. O futebol é a bola que se joga no jogo das conversas. Faz esquecer lealdades políticas, ideológicas, religiosas, econômicas, raciais. É a grande religião ecumênica. Acabam as diferenças. Todos são iguais. São torcedores de futebol. No mundo inteiro.” (ALVES, 2006, p. 7)

Para Rubem Alves, tal como as pessoas se ligam a uma religião, o que faz escolher determinado time não seriam razões intelectuais ou racionais, mas sim meramente afetivas ligadas a uma experiência social de pertencer a um coletivo. Refletindo sobre a natureza do torcedorm conclui que “o torcedor não se apaixona pelo time. Eles se apaixona pela torcida do time. O time só é o cabide onde a torcida está dependurada”. (ALVES, 2006, p. 26).

A torcida pode chegar à apoteose com a conquista de um título, mas o que mantém seu interesse pelo futebol é a renovação constante, o fato de “passada a euforia da vitória todos os times voltam à estaca zero, porque o futebol não leva a lugar algum” (p.30). Gostamos de ver o adversário derrotado, mas para isso, é preciso que esse mesmo adversário renasça também. Rubem Alves utiliza-se da comparação com a lógica reinante de desenhos animados como Tom e Jerry:

A gente sabe que, depois de se partir em mil cacos, o Tom vai reaparecer, na cena seguinte, forte e mau como sempre, sem apresentar quaisquer sinais do sucedido anteriormente. E depois de ser reduzido à condição de caranguejo ou de panqueca, ele vai estar logo em ação de novo, pois, caso contrário o desenho acabaria.
Pensei, então, que a gente dá risada quando o vilão se ferra, mas não de forma definitiva. Ele se recupera sempre para ser ferrado de novo e de novas formas, para que o riso se repita.” (ALVES, 2006, p. 34).

E até para esse momento de ressaca após uma bela Copa em casa, aliada à contundente derrota frente à Alemanha, Rubem Alves trouxe importante colaboração no capítulo que relaciona futebol ao sadismo:

No final todos os Tons ressuscitarão. Ressuscitarão, belos e lampeiros, em seus uniformes brilhantes, na próxima Copa, como se nada tivesse acontecido. Tudo é desenho animado” (ALVES, 2006, p . 23).


Mesmo sem entender ou até mesmo se envolver com futebol, o legado de Rubem Alves também ficou para os amantes deste esporte, lembrando que uma das suas graças é justamente a sua efemeridade, a sua constante renovação...tal como a vida.  Que venha a próxima Copa!

domingo, 20 de julho de 2014

João Ubaldo Ribeiro e a morte do futebol brasileiro.


Durante a Copa do Mundo, nos gramados o espetáculo era bonito de se ver, com festival de gols, belas defesas, times organizados e um clima festivo que se refletia fora dos gramados. Fora deles, nessas últimas semanas, enquanto o futebol perdia nomes importantes como Fernandão, Assis e Di Stéfano, no campo das ideias perdemos ainda dois dos mais relevantes pensadores nacionais: Rubem Alves e João Ubaldo Ribeiro.

Vascaíno e torcedor também do Vitória, o baiano João Ubaldo Ribeiro, além de grandes obras literárias, deixou também registros importantes no futebol. Há uma crônica dele publicada há cerca de um ano em que lembrava os tempos de juventude em que jogava bola sob a alcunha de “Delegado”, um zagueiro “bom de recursos discutíveis, mas bom de carrinho, chutão e reclamação com o juiz”, como ele mesmo definia. Após receber orientações do técnico em um jogo decisivo pelo seu time amador para atrapalhar o goleiro adversário chamado Gozila com uma “dedada na bunda dele”, ele assim fez. O goleiro, logicamente irritado, revidou com uma bofetada, deu uma baita confusão e depois de João Ubaldo negar perante o árbitro qualquer irregularidade, seu time conseguiu o pênalti, ganhou o jogo, o campeonato, mas ele passou a sair escoltado durante meses porque o Gozila queria pegá-lo de qualquer modo.

Muito tempo depois, já reconhecido escritor, foi chamado para ser Colunista do O Globo na Copa de 1994 enquanto no Brasil todos acompanhavam a caminhada daquela seleção rumo ao Tetra. Ao falar da seleção dos EUA, que assim como a atual, já era multicultural, saiu-se com essa:

No time americano, o técnico é sérvio, 15 jogadores são filhos de imigrantes originários de países onde se joga futebol e os outros são estrangeiros naturalizados, nascidos no Uruguai, El Salvador, Holanda, Alemanha e África do Sul. Talvez o nome certo devesse ser Nações Unidas, em vez de Estados Unidos

Logo após a conquista brasileira obtida na disputa por pênaltis contra a Itália, foi responsável por uma divertida crônica para narrar aquele feito:

“E o nosso gol que não saía! Achei que era porque eu tinha tirado a camisa, vesti a camisa disposto a morrer de insolação e desidratação pela pátria. Não adiantou, como vocês  viram. (...) Disputa de pênaltis. Ah, isso não, isso é mortal. Mas de novo não aguentei e foi aí – revelo este segredo em absoluta primeira mão – que ganhei o jogo para o Brasil.
Depois que Márcio Santos perdeu o primeiro pênalti, descobri que minha credencial estava virada ao contrário. Claro! Era só virá-la para o lado certo nos chutes do Brasil e pô-la ao contrário nos chutes da Itália. O resultado todo mundo sabe.” [1]

Ao brincar com isso, João Ubaldo Ribeiro tratava de uma característica quase que constituinte do povo brasileiro: a superstição de torcedores, que em época de Copa fica mais aguçada.

Nos últimos dias, ao mesmo tempo que lamentávamos o falecimento de João Ubaldo, a CBF, em evento oficial, apresentava suas soluções para dar um jeito no futebol brasileiro em entrevista coletiva, apresentando dois responsáveis pela comissão técnica: o ex-goleiro e empresário de jogadores, Gilmar Rinaldi, e Alexandre Gallo, técnico interino e da base, conhecido mais pela linha dura adotada ao não permitir que jogadores brasileiros usem brincos, cabelos compridos ou roupas chamativas, do que por qualquer título que tenha conquistado.

Ao que parece, tal como um torcedor supersticioso, a CBF encontra em cortes de cabelo ou em adereços para as orelhas as razões pelo fracasso apresentado em campo. Para esta instituição responsável pela (in)gerência do futebol brasileiro, melhor que os motivos pelos fiascos em campo estejam relegados a esses aspectos do que à sua própria incompetência.


Triste constatar que enquanto perdemos João Ubaldo Ribeiro, teremos que seguir adiante com a ultrapassada CBF, com Ricardos Teixeiras, Marins e Del Neros da vida. Diante desse quadro, difícil acreditar em um futuro melhor para o futebol brasileiro dentro de campo. Nem virando o crachá.

[1] Trecho encontrado em MARQUES, José Carlos, in LOGOS 33 Comunicação e Esporte. Vol.17, Nº02, 2º semestre 2010. (http://www.logos.uerj.br/PDFS/33/04_logos33_marques_cronicaesportiva.pdf)


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Argentina nas mãos de Deus e de Romero


Difícil voltar a escrever no auge da ressaca após o verdadeiro massacre imposto pela seleção alemã ao cambaleante futebol brasileiro. Muito já se disse, especulou, reclamou, etc. de modo que prefiro mudar o foco, direcionando para outros fatos que marcaram esta sensacional Copa do Mundo.

Inegável que daqui a alguns anos, quando formos falar desta Copa de 2014, esta fatídica goleada certamente será lembrada. Um resultado de 7 x 1 na semifinal contra um time com mais títulos nos mundiais jogando em casa é definitivamente um fato para entrar para história. Teremos que conviver com isso. 

Mas outros fatos também marcaram esta Copa: a estreia da então campeã amargando outro resultado humilhante, a alta média de gols, os excelentes jogos, as festas nos estádios, a sensação da equipe da Costa Rica e...a mordida do uruguaio Luiz Suarez no italiano Chiellini.

De fato, não há como passar despercebido por este fato. Não dá para entender o que leva um jogador que tinha sido decisivo no jogo anterior ao marcar dois gols a  morder, de forma deliberada, seu colega de trabalho. E o pior, um jogador que, tal como Heleno ou Almir Pernambuquinho, tem se destacado na carreira tanto pela bola que joga, como pelas atitudes completamente destemperadas.

Um cantor e humorista inglês não perdeu tempo e em poucos dias compôs uma canção com uma bela melodia narrando este fato: “Hey Luiz, don’t bite me”. Uma Ode a Luiz Suarez em que o autor sugere uma ajuda de psicólogos ao jogador que “tem diamantes nos pés e lobos nos olhos”. Vale a pena conferir o vídeo desta canção, com ilustrações de Dave Anderson.

Não foi a primeira vez que um episódio marcante de uma Copa recebe uma canção específica. Na Argentina, o música Rodrigo Bueno (conhecido como “El Potro”) homenageou o ídolo Maradona em uma canção que faz referência à “la mano de Dios”, que foi a forma como ficou conhecido o gol que o Maradona fez com a mão contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986. No mesmo jogo, Maradona fez outro gol que para muitos (inclusive para mim) foi o mais bonito da história das Copas, em um lance em que driblou praticamente meio time adversário antes de completar para o gol. O vídeo abaixo mostra a música com uma série de lances e gols deste que foi, para a minha geração (que não viu Pelé jogar), o maior jogador da história do futebol.

Essa canção entrou no repertório de um documentário sobre o Maradona feito pelo cineasta Emir Kusturika. Ao contrário de tantos outros filmes do gênero que focam a carreira e os gols de jogadores, neste o olhar se dá sobre a história do ser humano, com suas belezas e mazelas. Nesse vídeo aparece essa canção cantada pelo próprio Maradona, passagem esta que faz parte deste filme documentário.

O filme ainda mostra passagens sensacionais sobre a igreja maradoniana, criada pelos seus fãs na Argentina, com seus rituais que incrivelmente são levados a sério.

28 anos após “La Mano de Dios” ter ajudado a Argentina a conquistar o seu segundo título mundial e consagrada Maradona, as esperanças dos nossos “Hermanos” para esta Copa residem, fundamentalmente, nos pés geniais de Lionel Messi (La Pulga), tantas vezes eleito melhor do mundo, mas que ainda ocupa um patamar abaixo de Maradona em seu país por não ter levado a Argentina a um título mundial.


Para chegar à 5ª final na história das Copas, em tempos de Papa argentino, a sua seleção dependeu de outras mãos: a do Romero, fundamental ao defender dois pênaltis e levar a sua seleção à sua 5ª. final de Copa do Mundo. Resta saber agora se contra o forte time alemão, além das mãos de seu goleiro e da reza do Papa, os pés de Lionel Messi  conseguirão fazer a diferença e levar o título. Quem sabe nossos vizinhos possam celebrar cantando “La Mano de Dios”. 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

EUA e sua guerra interna com o futebol

Seleção dos EUA no jogo contra a Belgica em 1930. Bart McGhee é o primeiro agachado à direita. (fonte: http://grandesselecoes.blogspot.com.br/2010/03/estados-unidos.html)

Bélgica e EUA se enfrentaram hoje em mais um jogo sensacional desta Copa. Com nada menos do que 38 finalizações da Bélgica e 14 dos EUA, ao término da prorrogação o placar final de 2 x 1 para a Bélgica acabou não refletindo o que foi o jogo diante das  inúmeras chances reais de gols para ambos os lados. Só o goleiro Howard, dos EUA, fez nada menos de que 16 defesas, muitas difíceis. Foi uma bela forma de homenagear a Copa com a repetição do duelo que abriu a 1ª Copa do Mundo, em 1930 no Uruguai.

Há 84 anos, aquele jogo que terminou com a vitória dos EUA por 3 x 0. Embora possa parecer, o resultado não foi surpresa diante das circunstâncias.

Por um lado a presença da Bélgica naquela Copa pode ser atribuída exclusivamente à interferência de um de seus dirigentes – Rodolphe Seeldaryes - que também ocupava a vice-presidência da FIFA. Diante das dificuldades logísticas para viagens internacionais naquela época, a FIFA interferiu como pôde para trazer seleções europeias e, no fim, quatro toparam a epopeia: Bélgica, França, Romênia e Iugoslávia. Além das dificuldades em relação às longas viagens de navio nos primórdios do profissionalismo no futebol para chegar ao Uruguai, a seleção belga ainda chegou desfalcada de seu principal jogador, Raymond Braine, que não foi liberado pelo Sparta Praha, time em que atuava na Tchecoslováquia.

Por outro lado, o selecionado dos EUA naquela época foi constituído principalmente por imigrantes mais familiarizados com o futebol, em sua maioria escoceses, como Bart McGhee, autor de dois gols naquela partida. O primeiro deles por poucos minutos não entrou para a história como o primeiro tento marcado nas Copas [1].

Hoje, 1º de julho de 2014, as duas seleções voltaram a campo para travar o seu segundo confronto na história das Copas. Após um empate sem gols no tempo normal, a Bélgica conseguiu confirmar o ligeiro favoritismo e garantiu a vitória por 2 x 1 na prorrogação em um jogo recheado de emoções.

Em comum entre os dois jogos distantes no tempo, o fato da seleção dos EUA ser constituída em sua maioria por descendentes de imigrantes, latinos e europeus, motivando reações contrárias por parte de uma ala conservadora daquele país em uma verdadeira batalha contra o futebol. Nos últimos dias, a colunista Ann Coulter colocou mais lenha nesta fogueira ao publicar um artigo condenando o interesse da população local por este esporte. Para ela, o interesse pelo futebol seria um “sinal do declínio moral da nação".  

Esta oposição ao crescimento do interesse pelo futebol nos EUA não algo recente. Franklin Foer, em seu livro Como o Futebol Explica o Mundo, já abordava este aspecto como parte integrante de uma “guerra cultural” que opunha, nos anos 1980, conservadores que defendiam a moral de um lado, contra os liberais que apoiavam a modernidade e o pluralismo de outro. Neste contexto, a ala conservadora criou até um lobby antifutebol, que contava com importantes colunistas e comentaristas. Como exemplo da atuação deste lobby, pode-se citar Tom Weir, do USA Today, que procurava estreitar os laços entre os legítimos representantes dos EUA com a recusa ao futebol ao afirmar que “detestar esse esporte é mais norte-americano do que a torta de maçã, dirigir uma picape ou passar as tardes de domingo zapeando na TV”  


Diante disso, resta desejar que o belo legado que a seleção dos EUA deixou nesta Copa com Howard, Dempsey e Jones sirva como um importante golpe contra este grupo contrário ao desenvolvimento do futebol naquele país. O mundo agradecerá.


[1] O primeiro gol na história das Copas acabou sendo marcado pelo francês Laurent aos 19 minutos do 1º tempo, no jogo entre França e México, que foi disputado simultaneamente ao EUA x Bélgica. O gol de McGhee foi anotado aos 22 do 1º tempo.

domingo, 29 de junho de 2014

Chile: vaias ao hino...nunca mais!

Allende e Cazsely

Ontem, no sufoco, o Brasil precisou dos pênaltis para passar para as quartas-de-final, evitando uma eliminação que poderia ser traumática ao futebol brasileiro. Ao contrário das outras três oportunidades em que o Brasil enfrentou o Chile em Copas e ganhou com tranquilidade (a primeira em 62, no Chile, na semifinal - com Garrincha como protagonista - e as duas últimas em oitavas-de-final), ontem o jogo não foi nada fácil.

Após a partida, foi comum perceber nas redes sociais e nas conversas com amigos a procura pelas razões das dificuldades encontradas: a imobilidade do Fred, a marcação sobre Neymar, a falta de articulação no meio campo, os erros individuais, etc. Mas se houve algo que realmente envergonhou a todos foi a vaia de parte da torcida presente ao estádio para o hino chileno cantado à capela.

Não me lembro de alguma ocasião em que tal estupidez tenha ocorrido. Nem mesmo nos anos de guerra fria em confronto entre países rivais atitude tão vil foi presenciada. E parar piorar, foi feita justamente para um país sul-americano, com uma história tão próxima da nossa.

Um dos fatos mais lamentáveis que une Brasil e Chile foi o fato de terem sido, ambos, cenários de golpes militares em períodos próximos. Enquanto o Brasil teve seu golpe em 1964, no Chile, o ano trágico foi 1973, mais precisamente no 11 de setembro deles quando o Palácio de La Moneda sofreu ataques sob a liderança do Gal. Pinochet, tirando da presidência o governo democraticamente eleito de Allende que acabou morrendo. Nos dias seguintes, o Estádio Nacional, local feito para espetáculos de futebol, serviu como palco de horror para mais de 12 mil presos políticos, detidos e torturados.

Este triste episódio ocorreu justamente enquanto Chile e URSS estavam disputando uma vaga na repescagem para a Copa do Mundo de 1974. Após empate no primeiro jogo em Moscou em 0 x 0, a URSS solicitou a Fifa que alterassem o jogo de volta para não jogar no Estádio Nacional, que havia se transformado em verdadeiro campo de concentração. Diante da recusa em alterar o local, a URSS optou por não comparecer e no dia 21 de novembro a seleção chilena entrou em campo sozinha. O árbitro deu início de partida com apenas uma seleção em campo. Seus jogadores tocaram a bola até Valdéz concluir contra o gol “adversário” vazio: https://www.youtube.com/watch?v=Fb5KpkSajpw

Um dos principais jogadores daquela seleção chilena esteve em campo a contragosto: Carlos Cazsely, "El Chino". Trata-se de um dos maiores atacantes da história do Chile que além de artilheiro nos times e na seleção, conseguiu levar o Colo-Colo para a final da Copa Libertadores em 1973, competição na qual acabou como artilheiro (o primeiro e único jogador chileno a atingir este feito). Tornou-se uma verdadeira lenda em seu país, fato que nem o pênalti perdido na Copa de 82 conseguiu apagar.

Se era craque dentro de campo, fora teve um desempenho ainda mais relevante. Trata-se de um dos poucos esportistas da América do Sul que se levantou contra ditaduras daquela época. Opositor ao ditador Pinochet, Cazsely nunca teve medo de emitir suas opiniões políticas e  negava-se a cumprimentar o ditador enquanto era jogador da seleção chilena. Perseguido pelo regime durante o auge da sua carreira, teve sua mãe presa e torturada e precisou jogar em times espanhóis.

Após encerrar a carreira, encampou sem medo a campanha pelo “Não” no plebiscito que decidiria, em 1988, se Pinochet poderia ou não concorrer a mais um mandato de 8 anos. Com o seu prestígio, contribuiu para o fim da ditadura, motivo de grande celebração no país, sob o lema “Nunca mais!”. Neste vídeo, Cazsely fala sobre este período e aparecem imagens dessa época: https://www.youtube.com/watch?v=BXcK-CFAhCI

Enfim, trata-se de exemplo de luta não só dentro de campo, mas fora dele também, já que no meio futebolístico é muito difícil ver alguém com atitudes políticas tão corajosas.

Por fim, este Blog optou por fazer deste relato uma homenagem não só ao Cazsely por tudo que representou ao seu país, mas ao povo chileno que merecia muito mais respeito por parte do público que esteve no estádio ontem e envergonhou a história das Copas ao vaiar um hino nacional.

Assim como o Chile celebrou em 1990 o “nunca mais” ao regime militar, espero que nunca mais aqueles que têm frequentado estádios na Copa tenham atitudes tão lamentáveis.

sábado, 28 de junho de 2014

Alemanha: dá um Klose nela!


Termina a primeira fase em uma Copa do Mundo repleta de grandes jogos, muitos gols, algumas surpresas e com destaque para as poucas seleções que conseguiram confirmar seu favoritismo inicial e se classificaram sem maiores sustos: Brasil, Argentina, Holanda, França e...Alemanha.

Trata-se aqui de uma menção especial. Historicamente seu protagonismo em Copas é inegável. Com três títulos (dois em que venceu seleções então favoritas) e três vice-campeonatos, é a seleção com maior número de jogos me Copas, mesmo com menos participações do que o Brasil (não jogou em 1930 e em 1950).

Além disso, duas das partidas que estão entre as mais emocionantes da história das Copas teve a Alemanha em campo. A primeira foi na semifinal de 1970, contra a Itália. No tempo normal, a Itália saiu na frente no inicio do jogo e segurou até o finalzinho do jogo, quando a Alemanha conseguiu finalmente empatar. Na prorrogação, cinco gols, viradas e emoções em trinta minutos, que contou ainda com Beckembauer jogando (e muito) com o ombro imobilizado desde os 25 minutos do 2º tempo. Final, 4 x 3 para a Itália, no que foi considerado, para muitos, o “jogo do século”. Vale a pena conferir:

Doze anos depois, outra semifinal heroica, desta vez contra a França. Outro 1 x 1 no tempo normal e desta vez, após a França abrir 3 x 1 na prorrogação, a Alemanha foi buscar o empate e conseguiu passar para a final após as cobranças de pênaltis. Outro jogo épico que pode se repetir nas quartas-de-final desta Copa, caso ambas passem pelos seus adversários africanos:

Até 2006, a Alemanha tinha o artilheiro de todas as Copas, Gerd Muller com 14 gols marcados entre 1970 e 74, quando Ronaldo superou totalizando 15 gols marcados nas Copas de 1998, 2002 e 2006.

Agora outros dois alemães podem dar o troco. Um é outro Muller, o Thomas, que embora esteja ainda com 8 gols, tem apenas 24 anos e com pelo menos duas Copas a mais para disputar (fora a atual), tem condições para superar posteriormente os 15 gols.

Outro merece destaque especial. Trata-se de Miroslav Klose. Polonês de nascimento, naturalizado alemão, entrou no emocionante jogo contra Gana na primeira fase desta Copa do Mundo e com poucos minutos já igualou o recorde atual de 15 gols. Poderá ter oportunidades para ultrapassar o Ronaldo ainda nesta Copa do Mundo.

Embora nem de longe tenha a mesma categoria para fazer gols, em caráter supera muito o brasileiro. Além de artilheiro, o atacante deve ser um dos jogadores que mais fez na prática pelo tão propagado “fair play” na história do futebol. 

Em 2005, jogando pelo Werder Bremen pelo campeonato alemão, após cair na área em uma disputa de bola com o goleiro adversário e ver o árbitro marcar pênalti, avisou-o que não havia sofrido falta, abrindo mão do pênalti injusto.

Em 2012, repetiu a dose jogando pela Lazio contra o Napoli no campeonato italiano. Após ver seu gol marcado com a mão validado pelo árbitro, avisou-o sobre a irregularidade no lance, que foi invalidado imediatamente, de baixo de aplausos da torcida rival para sua atitude.



Por isso, ainda que o Ronaldo seja brasileiro (sem muito orgulho e tampouco amor), torço para que o Klose marque mais uma vez e supere o recorde. Para o bem do futebol, um jogador com essas qualidades tão raras hoje em dia merece muito ter seu nome ligado à história das Copas. E que o salto mortal que usa para comemorações seja o símbolo da dignidade não só na bola, mas na vida. 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Brasil de1982, quando o futebol encarrega-se de prestar homenagens


No final de semana entre os dias 14 e 15 de junho de 2014, tive uma experiência memorável. Pela primeira vez participei de uma transmissão de um jogo para rádio. Oportunidade única proporcionada pela rede Band News Fluminense, que em conjunto com a Bradesco FM, está transmitindo todos os jogos da Copa do Mundo para as rádios.
   
O primeiro jogo que participei como comentarista convidado foi Colômbia x Grécia. Confronto que opôs duas escolas distintas: por um lado, uma seleção sulamericana criativa com destaques individuais (ainda que sem Falcao Garcia, seu principal craque).

Do outro lado, um time que embora conte com jogadores como Samaras, meia do Celtic responsável pelas principais ações ofensivas do time helênico, tem como principal característica a disciplina tática baseada no forte sistema defensivo. Um dos destaques é Sokratis Papatathospoulos, zagueiro do Borussia Dortmund. Com bom posicionamento no lado esquerdo da zaga, acaba sendo responsável pelas saídas de jogo do limitado time grego.

Pelo lado da Colômbia, fiquei impressionado pela boa movimentação do meia Cuadrado, que joga uma bola redonda e participa intensamente do jogo, além da categoria de James Rodrigues. Por fim, diante do futebol apresentado, lamentei apenas a ausência de Falcao Garcia. Além de ser o jogador de maior destaque, teríamos presenciado um curioso confronto entre Sokratis e Falcao em uma Copa disputada no Brasil. Simbolicamente, um duelo desses seria uma bela “homenagem” àquele esquadrão brasileiro que encantou o mundo em 1982.

Para a minha geração, aquela seleção treinada por Telê Santana foi a que mais aproximou o futebol do espetáculo. Esbanjando categoria, toques refinados, e muita movimentação, o time de Sócrates, Falcão, Zico e Cerezo deu verdadeira aula de futebol que, de quebra, serviram para mostrar que na vida, mais importante não é o fim, mas sim o caminho. A partir daquela Copa, passei a entender que conquista do título não era o único objetivo, mas apenas a coroação de um time que deixou ótimas recordações não apenas para os brasileiros, mas para todos os amantes do futebol-arte.

A excelente impressão que a seleção brasileira deixou naquela Copa não é papo de saudosista. Na edição da revista Placar de 16 de julho de 1982 (logo após o término da Copa vencida pela Itália), a coluna do Alberto Helena Jr já abordava isso no calor dos acontecimentos: “foi o Brasil que deu cores, alegria e que abriu perspectivas para o ressurgimento do futebol elegante, ofensivo, inventivo, velho-novo, enfim.” Depois, conclui a coluna dizendo que a TV Espanhola, durante a transmissão do jogo da semifinal entre Polônia e Itália, suspirou pela ausência do nosso time: “o único capaz de conferir ao futebol que hoje se joga no mundo aquele toque especial de classe e eficiência, combinadas ao nível quase do ideal”.  As demais colunas e reportagens refletiam esse mesmo espírito.

Tal como a Hungria em 1954 e a Holanda em 1974, aquela seleção marcou a história do futebol e passou a ser celebrada e comentada mesmo sem ter sido campeã. Vale a pena conferir o vídeo com os 15 gols brasileiros que marcaram a campanha com a narração do Falcão, o brasileiro, protagonista daquele espetáculo.


Diante de tal quadro, é plenamente compreensível que o craque ausente da Colômbia atual tenha esse nome justamente como homenagem ao craque Falcão daquela seleção, como comprova em depoimento Radamel Garcia, o pai de Falcao Garcia: Em 1982, durante a Copa da Itália, eu fiz uma promessa de que se tivesse um filho homem, ele se chamaria Falcao. Fiquei encantando com o futebol dele". Pelo jeito, a inspiração deu resultado não só para este jogador, mas para o time inteiro da Colômbia que vem jogando muito bem nessa Copa.

domingo, 8 de junho de 2014

Costa Rica e seus guarda-metas


Gabelo Conejo, na Copa do Mundo de 1990.

A Copa do Mundo de 1990, disputada na Itália, entrou para a história como aquela com menor média de gols na história, com apenas 2,21 gols por partida. Em um torneio com essa marca, naturalmente alguns dos destaques fossem goleiros, como simbolicamente ocorreu com a Costa Rica.

Disputando sua primeira Copa, o time da América Central surpreendeu a todos ao conseguir ficar em 2º. lugar em seu grupo, vencendo as tradicionais Escócia e Suécia (perdeu apenas para o Brasil por 1 x 0).  Um feito muito comemorado nas ruas de San José e demais cidades costarriquenses que nem a eliminação pela Tchecoslováquia nas oitavas-de-final apagou.  

Naquela Copa do Mundo, é comum que muitos se lembrem das atuações de Walter Zenga, goleiro italiano que ficou 517 minutos sem tomar gols, estabelecendo um recorde que permanece até hoje. Entretanto, para a revista France Football, o melhor goleiro naquela oportunidade foi outro: Gabelo Conejo, da surpreendente Costa Rica, autor de defesas impressionantes contra Escócia, Brasil e Suécia, jogo em que acabou se machucando e desfalcou o time no confronto seguinte. Vejam alguns momentos contra a Escócia (https://www.youtube.com/watch?v=ECdVHYcZCHs).

Com aquelas atuações, o goleiro, que até então jogava no Cartagines, da Costa Rica (todos os jogadores daquela seleção jogavam no futebol local), foi contratado pelo Albacete da Espanha, onde teve destaque por três temporadas. Além de ser eleito o melhor da Copa, a France Football elegeu-o ainda um dos 100 melhores jogadores da história das Copas no final dos anos 1990. Sem dúvida um feito para um arqueiro costarriquenho.

24 anos depois, a Costa Rica chega a sua 4ª. Copa e tem suas esperanças (ainda que bem reduzidas diante do Grupo da Morte em que caiu [1]) depositadas novamente nas mãos de um arqueiro: Keylor Navas. Depois de, coincidentemente, passar pelo Albacete, na última temporada foi destaque no campeonato espanhol jogando pelo Levante e acabou eleito o segundo melhor goleiro (atrás apenas do belga Courtois, do Atlético de Madrid). Caso repita suas atuações, a Costa Rica pode almejar alguma coisa. Segue algumas defesas do Navas. https://www.youtube.com/watch?v=763EGs3pVDk.

Nada mais natural que os destaques naquele país sejam goleiros que transmitam tranquilidade e não atacantes. Trata-se de um país pacífico que goza de uma estabilidade política de fazer inveja aos seus vizinhos da América Central. Além de ser destaque na área ambiental atualmente, outro feito daquela pequena nação é o fato de que tenha extinguido suas forças armadas em 1948 (consolidando na Constituição de 1949), sendo o primeiro país do mundo a adotar tal medida. Eu descobri isso apenas semana passada, quando reencontrei o Renato, um velho amigo de infância que está casado com uma costarriquense, mora naquele país e hoje torce também pela Liga Alajuelense (conhecido como “La Liga”). Ou seja, de fato é um país que sabe se defender muito bem, seja no campo político, seja nos gramados do futebol.

Diante da verdadeira pedreira que tem pela frente ao enfrentar Uruguai, Itália e Inglaterra, certamente precisará continuar contando com grande goleiro. E os adversários que se cuidem, pois Suécia e Escócia também não contavam com tropeços em 1990.

[1] Será a primeira vez na história que uma seleção tem que enfrentar logo na fase de grupos, três ex-campeãs mundiais: Uruguai, Itália e Inglaterra.



sábado, 7 de junho de 2014

Argélia, de Camus a Madjer

Madjer fazendo o gol contra a Alemanha em 82

Nascido na Argélia antes de sua independência, o filósofo e escritor Albert Camus notabilizou-se não apenas por suas grandes obras literárias, mas também por suas lutas por causas sociais. Ainda na Argélia, denunciava o tratamento dado aos árabes pelos franceses. Posteriormente, na França ocupada pelos nazistas, fez parte da Resistência.

Entretanto, uma faceta menos conhecida do escritor era o seu gosto por futebol. Ainda na juventude, chegou a jogar como goleiro em um time na Argélia e só não seguiu carreira devido a uma tuberculose. Passou a vida fazendo referências ao futebol e assistindo jogos. Uma interessante reportagem sobre isso, incluindo a visita ao Brasil em 1949 está aqui.

Morreu em 1960, vítima de acidente de carro sem assistir não apenas a independência da Argélia em 1962, como também o seu país natal disputar uma Copa do Mundo. Tal como Camarões, a seleção da Argélia chegou a sua primeira Copa em 1982 ao bater a Nigéria no jogo decisivo, com gol de um atacante até então desconhecido, chamado Rabah Madjer.

No ano seguinte, na Copa, a estreia foi contra a poderosa Alemanha Ocidental que contava com Rummenigge, Breithner, Schummacher entre outros. Ao contrário do que a grande maioria poderia supor, a Argélia foi pra cima e venceu por 2 x 1, sendo que o primeiro gol foi marcado novamente por Madjer, ainda desconhecido mundialmente.

Após derrota para a Áustria, a Argélia venceu o Chile e teve que aguardar o resultado entre Áustria e Alemanha Oc. para confirmar ou não sua classificação (o único resultado que a eliminaria seria vitória alemã por um gol). Com dez minutos de jogo a Alemanha fez 1 x 0 e durante o resto do jogo, o que se viu foi uma vergonha: os dois times abdicaram do jogo e ficaram tocando a bola de lado, esperando o tempo passar sob vaias do público presente. A Argélia voltou pra casa eliminada, mas de cabeça erguida pelo belo futebol apresentado.

Após a Copa, Madjer foi jogar em times europeus e chegou, sem alarde, ao Porto, de Portugal em 1985. No primeiro jogo, entrou no segundo tempo contra o Belenenses e foi decisivo na virada por 3 x 2 ao marcar dois gols. Em três temporadas, ganhou tudo que podia e tornou-se um dos maiores ídolos da história do time daquele time português. Simbolicamente, a consagração viria novamente contra os alemães, na final da Copa dos Campeões contra o Bayern, quando fez um gol sensacional de calcanhar (após passe do brasileiro Juari) e o Porto sagrou-se pela primeira vez, campeão europeu.

Meses mais tarde, debaixo de uma nevasca impressionante no Japão, o argelino não se acovardou, fez mais um gol decisivo a ajudou seu time ao chegar ao título mundial contra o Penarol.

Camus diria que “tudo quanto sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo-o ao futebol.” Como uma bela paródia, após a Copa de 82, Madjer foi um jogador que deu orgulho aos argelinos, venceu na Europa, ganhou dos alemães chegou a topo do mundo.  Uma trajetória que certamente daria orgulho a famoso escritor.


Agora a Argélia retorna sem grandes estrelas, mas pelo menos com uma bela história para contar. 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Camarões: o nascimento dos leões indomáveis


Quando se fala na seleção de futebol de Camarões, a primeira recordação que vem à tona refere-se à brilhante participação na Copa do Mundo de 1990, quando foi a primeira seleção africana a chegar até as quartas-de-final e foi eliminada em um jogo memorável depois de ter a classificação muito próxima. Entretanto, para entender o sucesso daquele time, importante resgatar episódios mais antigos dessa seleção africana que não sejam tão conhecidas assim, já que não teria muito que acrescentar ao já folclórico time camaronês que marcou o mundo em 1990.

Doze anos após conquistar sua independência, em 1972 Camarões sediou a Copa Africana de Nações, principal torneio continental de futebol. Nessa ocasião chegou à terceira colocação (o primeiro título viria somente em 1984), mas imagens da época servem de importante pista para identificarmos a origem não só daquele futebol despretensioso e bonito de se ver, mas também da empolgação da sua torcida, assim como seus ritmos e músicas.

Esse documentário apresentado a seguir mostra, além de imagens dos principais jogos, incluindo a semifinal em que Camarões foi eliminado por Mali e a final que consagrou Congo, cenas de danças típicas, certamente fruto das inúmeras etnias que formam esse país.

Já em 1982, Camarões chegou a sua primeira Copa do Mundo. A classificação veio com uma vitória frente à seleção de Marrocos diante de 130 mil expectadores no estádio Ahmadou Ahijdjo de Yaoundé. Segundo relatos daquela época, “foi o maior acontecimento no país desde a festa pela independência, em janeiro de 1960. Uma espécie de delírio coletivo tomou conta da população, obrigando o presidente da República a decretar feriado nacional no dia seguinte para que todos pudessem se refazer dos excessos” [1].

Era a 2ª. vez na história que uma jovem nação da África negra chegava a uma Copa do Mundo. Considerando que a primeira participação tinha sido a seleção do Zaire em 1974, que terminou em último com três derrotas, 14 gols sofridos, com a maior goleada até então (9x0 contra Iugoslávia) e sem marcar um gol sequer, mesmo com toda euforia, a expectativa pela seleção de Camarões não era das maiores.

Isto fica evidente na própria reportagem da revista Placar citada anteriormente, que finaliza a mesma citando que “é de se convir que as pretensões de Vicent (técnico francês da seleção de Camarões naquela Copa) são muito arrojadas e desta vez será muito difícil acontecer uma grande festa na fanática Camarões”.

Outro reflexo deste pessimismo antes da Copa estava estampado no álbum de figurinhas da Copa de 1982 publicado pela Ping Pong (de grande sucesso entre a garotada naquela época, inclusive comigo). Enquanto para a maioria das seleções o álbum tinha figurinhas de 11 jogadores, para Camarões, assim como outras consideradas zebras (Argélia, Nova Zelândia, Honduras, El Salvador e Kuwait), tinham apenas quatro jogadores retratados (ilustração do post). No caso de Camarões, eram o grande goleiro N’kono, o armador Lea Dumbe, Tokoto (atacante mais conhecido naquele time) e Abega, o capitão. Se não conseguiu se classificar na 1ª.fase daquela Copa, pelo menos aquela seleção deixou boas lembranças ao sair invicto com três empates contra Peru, Polônia e Itália, sendo eliminado apenas pelo critério de gols marcados diante da Itália que seguiu na Copa e terminou campeã.

Dois anos depois, novamente Camarões ficou em festa devido ao futebol, com a 1ª. conquista da Copa Africana de Nações em torneio sediado na Costa do Marfim. Na final venceu de virada a Nigéria por 3 x 1, sendo que Abega foi autor de um dos gols (https://www.youtube.com/watch?v=L3kK-zEWfys).

Diante de tal feito, é compreensível que o falecimento de Abega em 2012 acabou causando uma comoção nacional. Embora menos conhecido por essas bandas em relação a outros jogadores camaronenses como N’Kono, Roger Milla ou Samuel Etto, Abega teve um papel importantíssimo na consolidação daquele país como uma das principais seleções africanas.


Pode ser que não passe da 1ª. fase neste ano, mas é melhor não menosprezar a empolgação desta seleção africana com maior número de participações em Copas do Mundo (será sua 7ª. vez).  

[1] Revista Placar, nº 625, de 14 de maio de 1982.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Irã, onde o futebol move montanhas

Momento em que os jogadores posaram juntos antes do jogo entre Irã e EUA na Copa do Mundo de 1998.

Em 1968, o Irã sediou a fase final da Copa das Nações Asiática de futebol, principal torneio continental,  e chegou ao jogo decisivo de contra Israel.  Ao contrário de países árabes, o ditador Xá Reza Pahlevi que governava o Irã reconhecia o país judeu e aceitava competir no âmbito esportivo, de modo que, visando estreitar laços com os EUA, queria que todo o povo iraniano, presente ou não ao estádio, apoiasse Israel.

Entretanto, naquela ocasião o povo iraniano, em sua grande parte, não estava de acordo com essa política e concentrou todos os esforços para pressionar Israel durante o jogo.  Incentivada por um estádio lotado, a seleção iraniana foi pra cima, ganhou de 2 x 1 e faturou o seu primeiro torneio continental. De acordo com Foer (2005), esta vitória “adquiriu um significado mítico. Compositores populares transformaram-na em canções. Os jogadores viraram ícones nacionais cujos chutes e passes eram recriados pelas crianças em milhares de peladas em ruas” [1].  Confira lances da partida aqui:

Dez anos depois, ainda sob o governo de Xá Reza Pahlevi, o futebol iraniano chegou pela primeira vez em sua história a uma Copa do Mundo, disputada na Argentina, quando perdeu dois jogos e conseguiu um empate com gosto de vitória contra a Escócia.

Naquela época o futebol já assumia um caráter fundamental não só culturalmente dentro do país persa, como também politicamente.  O fato é que o futebol desperta tanta paixão naquele povo que é capaz de levar uma média de 100.000 torcedores ao estádio Azadi sempre que estõ em campo Persépolis e Esteghlal, os principais times de Teerã. Persépolis, o time vermelho, é o mais popular enquanto Esteghlal, time azul que na época do Xá Reva Pahlevi chamava-se Taj (significa Coroa), estava mais ligado com a elite iraniana.

Com a revolução iraniana de 1979, Aiatolá Khomeini assumiu o poder e, buscando diminuir o que julgava ser influência ocidental na cultura local, tentou minimizar a importância do futebol (o Taj virou Esteghlal na tentativa de desassociar com “Coroa”). Foi proibida a presença de mulheres nos estádios e intensificado o controle sobre manifestações de torcidas. Entretanto, logo foi constatado que não seria tarefa tão simples assim. Embora o país, em guerra contra o vizinho Iraque, não tenha disputado eliminatórias para a Copa do Mundo de 82 e 86, o futebol continuava ter uma importância muito grande, comprovada quase vinte anos depois.

Em 1997, ao obter a classificação em um jogo eliminatório contra a Austrália para a Copa do Mundo de 1998, o governo local retardou em três dias o retorno da seleção para casa com receio de que novas comemorações nas ruas fugissem do controle. Mas de nada adiantou e até um grupo relativamente grande de mulheres conseguiu romper a proibição e comparecer ao estádio para aclamar seus jogadores na sua chegada. Aos policiais locais, restou fazer vistas grossas à tamanha “heresia”. No ano seguinte, em sua segunda Copa do Mundo, com gols de Estili e Mahdavikia, a seleção iraniana conseguiu sua primeira vitória nesse torneio justamente diante dos EUA, no que ficou conhecido como “jogo da paz”. Antes do início os times ainda posaram juntos para foto e os jogadores iranianos, em um belo gesto, presentearam os jogadores estadunidense com flores.

A euforia com a vitória foi tanta que acabou se transformando na maior manifestação popular desde a Revolução Iraniana de 1979. Além disso, as manifestações de um grupo de exilados iranianos chamado Mujahidin nas arquibancadas francesas acabaram sendo motivo de preocupação a mais para o governo dos Aiatolás.

Agora, às vésperas de sua 4ª. Copa do Mundo, no momento em que o governo iraniano tenta proibir mulheres de assistirem jogos em locais públicos ao lado de homens, a esperança é de que o futebol local continue servindo de combustível para impulsionar importantes mudanças no campo social que a sociedade iraniana tanto tem lutado. É esperar pra ver... e torcer.

[1] FOER, Franklin. Como o Futebol Explica o Mundo, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2005.

sábado, 31 de maio de 2014

Honduras, da guerra à paz

 Seleção de Honduras em 1982 (Foto: Seven Simon, Revista Placar, no.625, de 14 de maio de 1982)

A primeira recordação em relação ao futebol hondurenho está relacionada ao triste episódio que ficou conhecido como “guerra do futebol”, ocorrida em 1969 entre Honduras e El Salvador.

Naquele ano, os países eram governados por militares que enfrentavam sérias dificuldades econômicas e políticas. Acusando o vizinho de ocupação de suas terras, o governo hondurenho passou a expulsar milhares de camponeses salvadorenhos, agravando ainda mais tensão entre ambos. No meio desse caldeirão político, as seleções de seus países chegavam à disputa final das eliminatórias para a Copa a ser disputada no México no ano seguinte.

No primeiro jogo, em Tegucigalpa (capital da Honduras), diante de forte pressão da torcida local, Honduras ganhou por 1 x 0 com gol no último minuto. Logo após a partida, uma salvadorenha não aguentou a humilhação e se suicidou, causando grande comoção nacional. Na semana seguinte, em San Salvador, os salvadorenhos foram à forra, pressionaram de tudo quanto é jeito e acabaram ganhando de 3 x 0, forçando a realização de um jogo extra. Após esse jogo, dois torcedores hondurenhos foram mortos outras dezenas acabaram hospitalizados.

Na disputa pela vaga, no México, com os ânimos pra lá de exaltados, Honduras perdeu na prorrogação por 3 x 2, deixando a vaga para El Salvador. Imediatamente a fronteira entre ambos países foi fechada e a guerra foi declarada. O conflito durou cerca de uma semana e morreram ente 4000 e 6000 pessoas (o número de mortos varia dependendo da fonte consultada). Embora conhecida como “A guerra do Futebol”, ao que parece o futebol não foi a causa, mas sim serviu de pretexto para acirrar as rivalidades entre suas populações. Há até uma música local sobre o conflito: https://www.youtube.com/watch?v=TcATRFMRpaQ.

Para saber mais, vale a pena consultar o livro do polonês Ryszard Kapuscinski, “A Guerra do Futebol” (http://livraria.folha.com.br/livros/grandes-reportagens/guerra-futebol-ryszard-kapuscinski-1011874.html).  E um documentário interessante pode ser visto aqui: https://www.youtube.com/watch?v=NWsLerZLFX8

Doze anos depois desse conflito, Honduras e El Salvador se classificaram para a Copa do Mundo de 82, disputada na Espanha. Um dia após a seleção salvadorenha estrear com uma acachapante derrota de 10 x 1 diante da Hungria (recorde de goleada na história da Copas), Honduras entrou em campo para enfrentar a seleção dona da casa. Para muitos, seria um jogo tranquilo para a Espanha, com expectativa de goleada. Entretanto, com a bola rolando, o que se viu foi um jogo equilibrado com a seleção quase amadora da América Central abrindo o placar no primeiro tempo com Zelaya e segurando o placar com ótima atuação do goleiro Arzu. O empate espanhol veio só no 2º tempo com um pênalti duvidoso e o jogo ficou no 1 x 1. Vale a pena conferir esse jogo: https://www.youtube.com/watch?v=_rbhQE7PWRk

Na segunda rodada, a Honduras ficou em novo empate em 1 x 1 frente à Irlanda do Norte, deixando a definição do grupo para a última rodada quando o acabou levando um gol decisivo em um pênalti aos 43 min do 2º tempo contra a Iugoslávia. Com a derrota e a eliminação, muitos jogadores hondurenhos que brilharam em campo caíram no choro.

A seleção hondurenha retornou à Copa somente em 2010, novamente após passar por um período político tenso com a destituição em 2009 (ou golpe de Estado, dependendo do ponto de vista) de outro Zelaya, então presidente (não confundir com o Zelaya autor do gol contra a Espanha). Na Copa de 2010, foram duas derrotas e um empate e nova eliminação na primeira fase.

Agora, retorna à sua terceira Copa em um momento político mais tranquilo e em paz com o vizinho El Salvador. Resta saber se isso será suficiente para que consiga sua primeira vitória em Copas do Mundo, o que já seria um feito a ser celebrado em Tegucigalpa.





quarta-feira, 28 de maio de 2014

Equador e o pequeno Maracanazo


Eram quatro seleções disputando apenas uma vaga. O Brasil chega ao jogo decisivo após duas vitórias tranquilas enquanto o adversário, uma seleção sulamericana, tinha um empate e uma vitória apertada e somente ficaria em primeiro se ganhasse do Brasil em pleno Maracanã. A seleção brasileira, confiante, sai na frente, mas leva a virada, perde a primeira colocação e é eliminada.

Se você está pensando no Uruguai na Copa de 1950, errou. Estou falando aqui da seleção do Equador no Panamericano de 2007, que surpreendeu os donos da casa, ficou com a vaga, seguiu adiante e acabou conquistando a medalha de ouro.

Tudo bem que no Panamericano a competição não envolve os times principais, mas sim seleções sub-17. De qualquer forma, não deixa de ser futebol. E talvez tenha sido uma das maiores conquistas da seleção do Equador, ainda mais considerando o contexto (jogo no Maracanã contra o Brasil).

E eu estava lá naquele dia. A foto que ilustra este post foi tirada por mim mesmo, através de um celular simples cujas fotos não tinham resoluções muito boas, mas serve como lembrança. Estava querendo assistir alguma competição do Panamericano, mas como decidi em cima da hora, só me restou ingressos para o futebol. O Maracanã estava reformado, bonito e mesmo sem ser a seleção principal, tinha um astral legal. E o estádio ainda ostentava a tocha olímpica acessa na altura da linha do meio-de-campo, lembrando que era uma competição válida pelo Panamericano, no local onde tinha ocorrido a festa de abertura.

Jogando com revelações como Maicon (Fluminense), Alex Teixeira (Vasco) e Lulinha (Corinthians), o Brasil ainda saiu na frente, mas acabou levando a virada e perdeu por incríveis 4 x 2.  Pode-se dizer que, guardadas as devidas proporções, foi um “pequeno Maracanazo” [1].

Um ano depois, um time equatoriano (LDU) repetiu o feito no Maracanã ao conquistar a Libertadores vencendo o Fluminense nos pênaltis, dando mais uma prova da evolução do futebol equatoriano.

De fato, ainda que o Equador permaneça como zebra nas principais competições mundiais, é inegável que no futebol esteja em plena ascensão. Basta lembrar que depois de décadas, chegou a sua primeira Copa somente em 2002, mas repetiu o feito em 2006, quando conseguiu se classificar brilhantemente na fase de grupos ao derrotar Polônia e Costa Rica, caindo apenas nas oitavas frente à Inglaterra. Pode parecer pouco, mas foi suficiente para ser recebida com festa ao retornar para casa. 

Depois de não conseguir vaga em 2010, o Equador retorna agora à Copa do Mundo, mas talvez um pouco abalado pela morte de um dos seus principais jogadores no ano passado: Chrstian “Chucho” Benítez. Logo após ter jogado sua primeira partida pelo Al Jaish, do Catar, vindo de temporadas brilhantes no América-MEX, enfrentou problemas de saúde e faleceu com uma parada cardíaca. Vejam alguns gols dele:


Para a Copa do Mundo de 2014 resta ao Equador, além do luto por Chucho e as apostas em jogadores como Caicedo, Noboa e Enner Valencia, a esperança de surpreender novamente no Brasil, principalmente considerando que fará a 3ª (que poderá ser decisiva) partida contra a França justamente no Maracanã. Resta saber se este retrospecto será suficiente para que ocorra um novo “Maracanazo”, agora em versão francesa.  

[1] Maracanazo: termo usado em referência à vitória do Uruguai contra o Brasil no jogo que decidiu a Copa do Mundo de 1950, resultado que surpreendeu a todos que esperavam a vitória tranquila da seleção brasileira e o título daquele ano.

FICHA TÉCNICA DO JOGO:  BRASIL 2 X 4 EQUADOR 
Estádio: Estádio do Maracanã, Rio de Janeiro (RJ), data/hora: 21/7/2007 - 15h (de Brasília)
Árbitro: Pablo Lunati (ARG); Auxiliares: Juan Rebollo (ARG) e Patricio Basualdo (CHI) 
Cartões amarelos: Chango (31'/1ºT) e Banguera (29'/2ºT) (ECU); Fellipe (13'/2ºT) (BRA) 
Cartão vermelho: Rafael Forster (25'/2ºT) (BRA)
GOLS: Junior (37'/1ºT) e Alex Teixeira (26'/2ºT) (BRA); Chasi (45'/1ºT), Zura (2'/2ºT), Montero (17'/2ºT) e Ochoa (41'/2ºT) (EQU).
BRASIL: 1-Marcelo, 2-Rafael (15-Bruno Collaço, 43'/2ºT), 6-Fabio Silva (C), 13-Lazaro, 14-Rafael Forster, 8-Giuliano, 7-Fellipe (17-Choco, 18'/2ºT), 10-Lulinha, 9-Maicon, 11-Alex Teixeira, 18-Junior (16-Tales, 12'/2ºT). 

EQUADOR: 1-Maximo Banguera, 2-Wilson Folleco, 3-Deison Mendez, 4-Roberto Castro, 6-Hamilton Chasi, 13-Carlos Delgado (11-Fabricio Guevara, 44'/2ºT), 16-Israel Chango, 5- Jefferson Pinto, 8-Jefferson Montero (7-Jesus Alcivar, 41'/2ºT), 17-Fidel Martinez, 9-Edmundo Zura (C) (18-Pablo Ochoa, 33'/2ºT).