sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A pequena grande Samoa Americana e suas lições ao mundo

Jaiyah Saelua, entrando em campo pela Samo Americana 

Outro dia assisti ao filme-documentário “The Next Goal Wins” (http://nextgoalwinsmovie.com/), que trata da história recente da seleção de futebol da Samoa Americana, um pequeno pais (ainda que dependente dos EUA) na Oceania e que, até pouco tempo atrás ocupava o último lugar no ranking da Fifa.

Ficha técnica do jogo contra Australia
Tendo como ponto de partida o jogo disputado no dia 11 de abril de 2001, quando sofreu uma incrível derrota de 31 x 0 contra a Austrália pelas eliminatórias para a Copa de 2002, o filme retrata a luta para que sua seleção, formada por jogadores amadores, saísse da incômoda situação de ser considerada a pior do mundo. Desde o fatídico resultado frente à Austrália (jogo em que 21 dos 22 convocados não puderam representa-la por terem outro passaporte e acabou reunindo às pressas jogadores com cerca de 15,16, 17 anos) até as eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014, disputada no final de 2011, foram disputados 30 jogos e nenhuma vitória, com 12 gols marcados e 229 sofridos.


Após mais uma pífia campanha em um torneio da Oceania em 2010, a federação local decidiu contratar um técnico de fora que pudesse dar um rumo àquele time e chegar, pelo menos, a uma vitória. Em 2011, chegou Thomas Rongen, um holandês, até então técnico da seleção sub-20 dos EUA, único que se candidatou ao peculiar emprego.

O time começou a treinar de forma mais organizada visando às eliminatórias para a Copa de 2014. No dia 22 de novembro de 2011, na primeira fase das eliminatórias na Oceania, em Ápia, Samoa, a seleção da Samoa Americana entra em campo para enfrentar Tonga e após abrir dois gols de vantagem, leva um e já sem fôlego, consegue segurar o resultado, comemorado como se fosse um verdadeiro título. Para os desavisados, este jogo pode não representar nada, mas para a pequena Samoa Americana representou a primeira vitória daquela seleção e entrou para a história do futebol mundial. Após um empate no segundo jogo contra Ilhas Cook e uma derrota com um gol no último minuto frente à vizinha Samoa, a Samoa Americana pôde, mesmo eliminada, comemorar o fato de, pela primeira vez, ter jogado de igual para igual com seus adversários.

Veja os gols do jogo heróico jogo contra Tonga: 

O filme “The Next Goals Wins”, muito bem dirigido, consegue demonstrar esse heroísmo de seus protagonistas através de várias histórias individuais que estão por trás da epopeia deste verdadeiro exército de Brancaleone do futebol.

Pode-se destacar, por exemplo, o técnico Thomas Rongen, que passa a se identificar com aquele simpático grupo de jogadores e acaba encontrando naquela missão uma nova razão de viver após passar por um drama pessoal  ao perder uma filha em um acidente de carro e talvez, por isso, tenha decidido recomeçar a vida na longínqua Samoa Americana.

Outro que merece atenção especial é o goleiro Nicky Salapu .  Trata-se do mesmo que, 10 anos antes, tinha levado 31 gols da Austrália (e feito defesas importantes, diga-se) e convivia, desde então com esse pesadelo. Na tentativa de esquecer, ele muda-se para os EUA, mas acaba sucumbindo aos apelos para retornar ao selecionado de seu país, disposto a apagar o que ele considerava um vexame e reescrever a história.

Mas o maior destaque de toda essa trajetória fica por conta de Johnny/Jaiyah Saelua. Trata-se de uma jovem zagueira que foi o primeiro transexual a disputar uma partida de futebol oficial. Registrado como Johnny, teve que jogador futebol masculino desde os 15 anos e naquela vitória contra Tonga acabou eleita a melhor em campo. Antes desse jogo, já adotava o nome Jaiyah. Em entrevista ao site Mais Futebol, de Portugal, em dezembro de 2011, Jaiyat declarou:

A Samoa Americana, assim como outros países do Pacífico com cultura polinésia, aceitam os fa’afafine. São pessoas que nascem homens, mas que se sentem mulheres desde muito cedo. É algo aceite em quase todos os aspectos da sociedade, embora no esporte seja um pouco mais difícil”.

O filme citado emociona como a questão de ser fa’afafine (o que para leigos seria transexual) é totalmente natural por todos em Samoa Americana. Trata-se de uma não-questão, algo que não causa estranhamento entre os demais jogadores e torcedores locais. O técnico holandês salienta a importância dela para o ambiente do time em termos de respeito e união do grupo. E lamenta que isso não aconteça no resto do mundo: “Na verdade, tivemos uma mulher atuando como zagueiro central. Você consegue imaginar isso na Inglaterra ou na Espanha?”

Nas entrevistas de Jaiyah Saelua, fica muito evidente a sua felicidade em jogar em um ambiente familiar, em que se sente tão bem. Ambiente este que infelizmente ela não encontrou quando tentou jogar futebol no Havaí, onde foi estudar artes cênicas.

De fato, é de se emocionar que em um país em que seus jogadores buscam em campo nada mais do que jogar com dignidade, seja palco de uma história exemplar para o mundo ocidental, inclusive o Brasil de tantos títulos no futebol, mas que certamente ainda imaturo para lidar com questões de respeito às diferenças, como determinados candidatos deixam tão evidente.


Com essa história, a pequena Samoa Americana, de heróis como Jaiyah e Salapu ganhou definitivamente meu respeito e minha torcida. Que seja um exemplo para o mundo. 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O dia em que Pires e Mococa calaram o Maracanã

Mococa disputando bola com Carpegianni no meio campo (foto de Rodolpho Machado, in Placar nº 503). 

Passei minha infância, fase em que mais me envolvi emocionalmente com o futebol, entre o final dos anos 70 e início dos anos 80, período que coincidiu com a época das vacas magras para o Palmeiras.

Mas isso não significa que não houve nada que a torcida palmeirense pudesse celebrar naquela época.  E pra mim, um jogo em especial foi marcante e faço questão de lembrá-lo aqui como forma de homenagear o centenário do velho Palestra Itália.

No dia 8 de dezembro de 1979, o Palmeiras, dirigido por Telê Santana (último clube antes de assumir a seleção) entrou em campo no Maracanã para enfrentar o Flamengo em jogo que valia vaga na semifinal do campeonato brasileiro de 1979 (que contou com o regulamento mais esdrúxulo de todos os tempos, mas isso são outros quinhentos). Diante de um público de mais de 112.000 pagantes, teve pela frente o Flamengo de Zico, Adílio, Junior e Tita, que tinha conquistado dois títulos estaduais no mesmo ano (isso mesmo!) e se apresentava como favorito, afinal já era um esboço daquele que viria ser campeão mundial em 1981.  Pelo lado alviverde despontava jogadores mais jovens e menos renomados como Jorginho, César (não o “maluco”) e Mococa, acompanhados de alguns mais experientes como Pires, Pedrinho e Jorge Mendonça.

Dias antes, já prevendo um jogo decisivo em que o Palmeiras podia entrar com a vantagem do empate, Telê Santana foi categórico:

(foto de José Pinto, Revista Placar, 502)


“não pensem que para garantir o empate meu time vai se retrancar. Nada disso. Para mim, a melhor maneira de se chegar ao empate, sem passar sustos, é entrar para ganhar.” [1]


E em campo, o que se viu foi exatamente isso. Se considerando apenas a fama dos jogadores, o Flamengo era considerado favorito, dentro de campo o que se viu foi um massacre alviverde. Jogando com simplicidade, naquela tarde o Palmeiras dominou completamente o adversário, executou lançamentos precisos, toques rápidos e triangulações perfeitas.




Com Cantarelli batido, César, o 9 palmeirense perdeu este gol incrível, chutando no travessão. Podia ter sido mais (foto de  Ignácio Ferreira, in Placar nº 503, dezembro de 1979)

Ressaltando aspectos como o posicionamento do Pires, junto com Mococa na entrada de área; os deslocamentos laterais executados pelo Jorge Mendonça e pelo centroavante César  abrido espaços para os laterais Rosemiro e Pedrinho; as inversões dos pontas Baroninho e Jorginho; e as jogadas ensaiadas, a Revista Placar (principal meio de comunicação esportiva escrita naquela época) ressaltou o verdadeiro baile tático que o time de Telê Santana aplicou sobre o time rubro-negro, comandado pelo, até então, técnico da seleção brasileira, Claudio Coutinho. Vale a pena ver os melhores momentos dessa verdadeira aula de futebol. 

www.youtube.com/watch?v=B-3MkCZ3hNU

No final, uma agressão covarde do Beijoca (atacante flamenguista) acabou sendo um retrato do jogo em que a goleada categórica (4 x 1) foi apenas uma consequência diante da dimensão da superioridade palmeirense naquele dia. Eu, que estava naquele dia no Rio de Janeiro, lembro  não só do jogo, mas também da sua repercussão.  


Ficha técnica do jogo (Revista Placar nº 503)
Na semifinal, apesar do esforço, o time do Palmeiras não conseguiu superar o forte time do Internacional e acabou eliminado. Mesmo sem o título, em enquete feita com 221 jornalistas brasileiros ainda naquele mês, nada menos do que 197 indicaram o então técnico palmeirense Telê Santana como o melhor técnico brasileiro, credenciando-o para assumir a seleção brasileira no início de fevereiro de 1980. 


Se não serviu para levar o Palmeiras ao título, certamente aquele time deu uma contribuição fundamental ao futebol brasileiro ao servir para colocar o Mestre Telê Santana em justa evidência, culminando no brilhante trabalho frente à seleção após aquela a Copa de 1982. Valeu Palmeiras! O futebol brasileiro agradece! Fica aqui a imagem do primeiro gol (na falta de Youtube, Placar publicava os gols desta forma).
Primeiro gol em fotos de Ignácio Ferreira e Rodolpho Machado, in Placar nº 503.




[1] Entrevista à Revista Placar de 3 de dezembro de 1979.

domingo, 10 de agosto de 2014

Homenagem em dose dupla

Foto de Rodolpho Machado na revista Placar nº696, de 23 de setembro de 1983.

Na semana passada, no jogo no Maracanã contra o Goiás, o Fluminense prestou uma bela homenagem a uma das mais famosas duplas da história do futebol brasileiro que deu tantas alegrias à torcida nos anos 80: Assis e Washington (com direito a distribuição de máscaras deles para a torcida). O blog Futebol Sonoro aproveita para registrar também sua homenagem.

No início dos anos 80, quem dominava o cenário no futebol carioca e nacional era o Flamengo. Esse cenário mudou com a chegada de Washington e Assis ao Fluminense em 1983 após uma passagem vitoriosa de ambos pelo Atlético-PR, onde tinham se consagrado com um título estadual após 12 anos de jejum e levaram o time paranaense até a semifinal do Campeonato Brasileiro de 1982 (faltou muito pouco para não eliminar o Flamengo).

A chegada deles ao Flu ocorreu sem maiores alardes. O time carioca amargava anos sem conquistas e depositava suas parcas esperanças em contratações de jogadores menos conhecidos. Mas o time “deu liga”, a começar com a conquista da Taça Guanabara, que levou o time para a final do campeonato daquele ano. Em setembro de 1983, após a conquista da Taça Guanabara, a revista Placar já deu destaque a esta dupla com uma reportagem especial que iniciava da seguinte forma:

Um é paulista e o outro baiano, mas passariam perfeitamente por dois cariocas autênticos. Assis, 29 anos, e Washington, 23, chegaram ao Rio de Janeiro há pouco mais de dois meses e já assimilaram toda a malandragem que a cidade lhes podia ensinar. Juntos desde os tempos de Atlético Paranaense, eles combinam jogadas, armam esquemas particulares imprevisíveis e sabem como ninguém tirar partido da irritação do adversário. Resultado: conquistaram a Taça Guanabara defendendo um time, o Fluminense, que até eles chegarem estava totalmente desacreditado”.

A final do estadual foi disputada em um triangular com Bangu e Flamengo. Após um empate contra o Bangu, chegou ao jogo contra o Flamengo com a necessidade de ganhar para continuar na briga pelo título e eliminar o rival. O jogo seguiu empatado até os 45 minutos do 2º. tempo, quando Assis recebeu um lançamento de Delei, entrou na área e tocou na saída do goleiro Raul, fazendo o gol decisivo para o título do Flu. De tão marcante, a torcida tricolor passou a reverencia-lo com o canto “Re-cor-dar é viver...Assis acabou com vocês” (parafraseando a música “Recordar é viver, eu ontem sonhei com você”).  Vale a pena conferir a reportagem especial do Sportv sobre este jogo com depoimento de Delei (https://www.youtube.com/watch?v=w758fKWUGUc), assim como conferir o canto daquela torcida em jogo que comemorou o centenário do Fla x Flu (e presença de Assis): https://www.youtube.com/watch?v=RkuijwEqYSI.

Em 1984, novamente contra o Flamengo, Assis acabou repetindo a dose e o Flu saiu-se bicampeão (www.youtube.com/watch?v=0oqMQ_S8Bsg ).  Washington também costumava ser decisivo, como na final de 1985 (ano do tricampeonato) ao marcar um belo gol contra o Flamengo em jogo em que Assis estava de fora, contundido, jogo que mereceu uma reportagem especial na Globo, com relato do goleiro Paulo Vítor e o lateral Leandro, do Flamengo: https://www.youtube.com/watch?v=_4_s7cAOELs.

Como se não bastasse, nesse período a dupla – chamada de Casal 20 – levou o time ao título brasileiro em 1984 que veio em um empate sem gols contra o Vasco (após vitória de 1 x 0 com gol de Romerito). O Sportv fez uma reportagem especial de um jogo marcante daquela trajetória: a vitória sensacional na semifinal contra o Corinthians, fora de casa, por 2 x 0, com participação do Assis lembrando aquele jogo.

Enfim, entre 1983 e 85, aquele Fluminense conquistou o tricampeonato estadual e foi campeão brasileiro com um time que além do forte conjunto e do paraguaio Romerito (o craque do time), teve como um dos maiores símbolos o chamado Casal 20, totalmente identificado com o time e sua torcida.

Tal como foram unidos em campo, Washington e Assis acabaram falecendo em um curto intervalo de tempo (entre 25 de maio e 6 de julho), deixando um imenso pesar por parte da torcida do Atlético-PR e do Fluminense. Lembro que no dia em que Assis foi enterrado em Curitiba, simbolicamente caiu uma chuva torrencial. Até o céu estava triste.

Por tudo que construíram junto ao futebol, pelo que representaram principalmente para as torcidas do Atlético-PR e Fluminense, qualquer homenagem será pouca. Segue aqui o vídeo exibido no telão do Maracanã. É de se emocionar:

sábado, 26 de julho de 2014

Rubem Alves e a lógica do desenho animado no futebol


É sabido que Rubem Alves não sabia nada de futebol, não jogava, não torcia e tampouco conhecia algum jogador (exceto o Ronaldinho Gaúcho, por quem torcia devido à alegria que transmite enquanto joga). Entretanto, provocado por sua editora, em 2006 resolveu escrever um livro que tem esse esporte apaixonante como tema central: O Futebol levado ao Riso.

Trata-se, como ele mesmo definiu, de uma brincadeira, em que aborda de uma forma leve e pessoal a relação do futebol com diversos temas como religião, infância, guerra, matemática, e principalmente...torcida.

E através de seu afastamento em relação ao futebol conseguiu dar pistas interessantes das razões que o levaram a ser tão apaixonante quanto é.

“O futebol é o circo do mundo. Não há nenhum outro esporte que provoque tanta paixão, tanta alegria, tanta tristeza. O futebol dá sentido à vida de milhões de pessoas que, de outra forma, estariam condenadas ao tédio. É o assunto, nas manhãs de segunda-feira, em bares, escritórios, fábricas, taxis, construções. O futebol é a bola que se joga no jogo das conversas. Faz esquecer lealdades políticas, ideológicas, religiosas, econômicas, raciais. É a grande religião ecumênica. Acabam as diferenças. Todos são iguais. São torcedores de futebol. No mundo inteiro.” (ALVES, 2006, p. 7)

Para Rubem Alves, tal como as pessoas se ligam a uma religião, o que faz escolher determinado time não seriam razões intelectuais ou racionais, mas sim meramente afetivas ligadas a uma experiência social de pertencer a um coletivo. Refletindo sobre a natureza do torcedorm conclui que “o torcedor não se apaixona pelo time. Eles se apaixona pela torcida do time. O time só é o cabide onde a torcida está dependurada”. (ALVES, 2006, p. 26).

A torcida pode chegar à apoteose com a conquista de um título, mas o que mantém seu interesse pelo futebol é a renovação constante, o fato de “passada a euforia da vitória todos os times voltam à estaca zero, porque o futebol não leva a lugar algum” (p.30). Gostamos de ver o adversário derrotado, mas para isso, é preciso que esse mesmo adversário renasça também. Rubem Alves utiliza-se da comparação com a lógica reinante de desenhos animados como Tom e Jerry:

A gente sabe que, depois de se partir em mil cacos, o Tom vai reaparecer, na cena seguinte, forte e mau como sempre, sem apresentar quaisquer sinais do sucedido anteriormente. E depois de ser reduzido à condição de caranguejo ou de panqueca, ele vai estar logo em ação de novo, pois, caso contrário o desenho acabaria.
Pensei, então, que a gente dá risada quando o vilão se ferra, mas não de forma definitiva. Ele se recupera sempre para ser ferrado de novo e de novas formas, para que o riso se repita.” (ALVES, 2006, p. 34).

E até para esse momento de ressaca após uma bela Copa em casa, aliada à contundente derrota frente à Alemanha, Rubem Alves trouxe importante colaboração no capítulo que relaciona futebol ao sadismo:

No final todos os Tons ressuscitarão. Ressuscitarão, belos e lampeiros, em seus uniformes brilhantes, na próxima Copa, como se nada tivesse acontecido. Tudo é desenho animado” (ALVES, 2006, p . 23).


Mesmo sem entender ou até mesmo se envolver com futebol, o legado de Rubem Alves também ficou para os amantes deste esporte, lembrando que uma das suas graças é justamente a sua efemeridade, a sua constante renovação...tal como a vida.  Que venha a próxima Copa!

domingo, 20 de julho de 2014

João Ubaldo Ribeiro e a morte do futebol brasileiro.


Durante a Copa do Mundo, nos gramados o espetáculo era bonito de se ver, com festival de gols, belas defesas, times organizados e um clima festivo que se refletia fora dos gramados. Fora deles, nessas últimas semanas, enquanto o futebol perdia nomes importantes como Fernandão, Assis e Di Stéfano, no campo das ideias perdemos ainda dois dos mais relevantes pensadores nacionais: Rubem Alves e João Ubaldo Ribeiro.

Vascaíno e torcedor também do Vitória, o baiano João Ubaldo Ribeiro, além de grandes obras literárias, deixou também registros importantes no futebol. Há uma crônica dele publicada há cerca de um ano em que lembrava os tempos de juventude em que jogava bola sob a alcunha de “Delegado”, um zagueiro “bom de recursos discutíveis, mas bom de carrinho, chutão e reclamação com o juiz”, como ele mesmo definia. Após receber orientações do técnico em um jogo decisivo pelo seu time amador para atrapalhar o goleiro adversário chamado Gozila com uma “dedada na bunda dele”, ele assim fez. O goleiro, logicamente irritado, revidou com uma bofetada, deu uma baita confusão e depois de João Ubaldo negar perante o árbitro qualquer irregularidade, seu time conseguiu o pênalti, ganhou o jogo, o campeonato, mas ele passou a sair escoltado durante meses porque o Gozila queria pegá-lo de qualquer modo.

Muito tempo depois, já reconhecido escritor, foi chamado para ser Colunista do O Globo na Copa de 1994 enquanto no Brasil todos acompanhavam a caminhada daquela seleção rumo ao Tetra. Ao falar da seleção dos EUA, que assim como a atual, já era multicultural, saiu-se com essa:

No time americano, o técnico é sérvio, 15 jogadores são filhos de imigrantes originários de países onde se joga futebol e os outros são estrangeiros naturalizados, nascidos no Uruguai, El Salvador, Holanda, Alemanha e África do Sul. Talvez o nome certo devesse ser Nações Unidas, em vez de Estados Unidos

Logo após a conquista brasileira obtida na disputa por pênaltis contra a Itália, foi responsável por uma divertida crônica para narrar aquele feito:

“E o nosso gol que não saía! Achei que era porque eu tinha tirado a camisa, vesti a camisa disposto a morrer de insolação e desidratação pela pátria. Não adiantou, como vocês  viram. (...) Disputa de pênaltis. Ah, isso não, isso é mortal. Mas de novo não aguentei e foi aí – revelo este segredo em absoluta primeira mão – que ganhei o jogo para o Brasil.
Depois que Márcio Santos perdeu o primeiro pênalti, descobri que minha credencial estava virada ao contrário. Claro! Era só virá-la para o lado certo nos chutes do Brasil e pô-la ao contrário nos chutes da Itália. O resultado todo mundo sabe.” [1]

Ao brincar com isso, João Ubaldo Ribeiro tratava de uma característica quase que constituinte do povo brasileiro: a superstição de torcedores, que em época de Copa fica mais aguçada.

Nos últimos dias, ao mesmo tempo que lamentávamos o falecimento de João Ubaldo, a CBF, em evento oficial, apresentava suas soluções para dar um jeito no futebol brasileiro em entrevista coletiva, apresentando dois responsáveis pela comissão técnica: o ex-goleiro e empresário de jogadores, Gilmar Rinaldi, e Alexandre Gallo, técnico interino e da base, conhecido mais pela linha dura adotada ao não permitir que jogadores brasileiros usem brincos, cabelos compridos ou roupas chamativas, do que por qualquer título que tenha conquistado.

Ao que parece, tal como um torcedor supersticioso, a CBF encontra em cortes de cabelo ou em adereços para as orelhas as razões pelo fracasso apresentado em campo. Para esta instituição responsável pela (in)gerência do futebol brasileiro, melhor que os motivos pelos fiascos em campo estejam relegados a esses aspectos do que à sua própria incompetência.


Triste constatar que enquanto perdemos João Ubaldo Ribeiro, teremos que seguir adiante com a ultrapassada CBF, com Ricardos Teixeiras, Marins e Del Neros da vida. Diante desse quadro, difícil acreditar em um futuro melhor para o futebol brasileiro dentro de campo. Nem virando o crachá.

[1] Trecho encontrado em MARQUES, José Carlos, in LOGOS 33 Comunicação e Esporte. Vol.17, Nº02, 2º semestre 2010. (http://www.logos.uerj.br/PDFS/33/04_logos33_marques_cronicaesportiva.pdf)


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Argentina nas mãos de Deus e de Romero


Difícil voltar a escrever no auge da ressaca após o verdadeiro massacre imposto pela seleção alemã ao cambaleante futebol brasileiro. Muito já se disse, especulou, reclamou, etc. de modo que prefiro mudar o foco, direcionando para outros fatos que marcaram esta sensacional Copa do Mundo.

Inegável que daqui a alguns anos, quando formos falar desta Copa de 2014, esta fatídica goleada certamente será lembrada. Um resultado de 7 x 1 na semifinal contra um time com mais títulos nos mundiais jogando em casa é definitivamente um fato para entrar para história. Teremos que conviver com isso. 

Mas outros fatos também marcaram esta Copa: a estreia da então campeã amargando outro resultado humilhante, a alta média de gols, os excelentes jogos, as festas nos estádios, a sensação da equipe da Costa Rica e...a mordida do uruguaio Luiz Suarez no italiano Chiellini.

De fato, não há como passar despercebido por este fato. Não dá para entender o que leva um jogador que tinha sido decisivo no jogo anterior ao marcar dois gols a  morder, de forma deliberada, seu colega de trabalho. E o pior, um jogador que, tal como Heleno ou Almir Pernambuquinho, tem se destacado na carreira tanto pela bola que joga, como pelas atitudes completamente destemperadas.

Um cantor e humorista inglês não perdeu tempo e em poucos dias compôs uma canção com uma bela melodia narrando este fato: “Hey Luiz, don’t bite me”. Uma Ode a Luiz Suarez em que o autor sugere uma ajuda de psicólogos ao jogador que “tem diamantes nos pés e lobos nos olhos”. Vale a pena conferir o vídeo desta canção, com ilustrações de Dave Anderson.

Não foi a primeira vez que um episódio marcante de uma Copa recebe uma canção específica. Na Argentina, o música Rodrigo Bueno (conhecido como “El Potro”) homenageou o ídolo Maradona em uma canção que faz referência à “la mano de Dios”, que foi a forma como ficou conhecido o gol que o Maradona fez com a mão contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986. No mesmo jogo, Maradona fez outro gol que para muitos (inclusive para mim) foi o mais bonito da história das Copas, em um lance em que driblou praticamente meio time adversário antes de completar para o gol. O vídeo abaixo mostra a música com uma série de lances e gols deste que foi, para a minha geração (que não viu Pelé jogar), o maior jogador da história do futebol.

Essa canção entrou no repertório de um documentário sobre o Maradona feito pelo cineasta Emir Kusturika. Ao contrário de tantos outros filmes do gênero que focam a carreira e os gols de jogadores, neste o olhar se dá sobre a história do ser humano, com suas belezas e mazelas. Nesse vídeo aparece essa canção cantada pelo próprio Maradona, passagem esta que faz parte deste filme documentário.

O filme ainda mostra passagens sensacionais sobre a igreja maradoniana, criada pelos seus fãs na Argentina, com seus rituais que incrivelmente são levados a sério.

28 anos após “La Mano de Dios” ter ajudado a Argentina a conquistar o seu segundo título mundial e consagrada Maradona, as esperanças dos nossos “Hermanos” para esta Copa residem, fundamentalmente, nos pés geniais de Lionel Messi (La Pulga), tantas vezes eleito melhor do mundo, mas que ainda ocupa um patamar abaixo de Maradona em seu país por não ter levado a Argentina a um título mundial.


Para chegar à 5ª final na história das Copas, em tempos de Papa argentino, a sua seleção dependeu de outras mãos: a do Romero, fundamental ao defender dois pênaltis e levar a sua seleção à sua 5ª. final de Copa do Mundo. Resta saber agora se contra o forte time alemão, além das mãos de seu goleiro e da reza do Papa, os pés de Lionel Messi  conseguirão fazer a diferença e levar o título. Quem sabe nossos vizinhos possam celebrar cantando “La Mano de Dios”. 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

EUA e sua guerra interna com o futebol

Seleção dos EUA no jogo contra a Belgica em 1930. Bart McGhee é o primeiro agachado à direita. (fonte: http://grandesselecoes.blogspot.com.br/2010/03/estados-unidos.html)

Bélgica e EUA se enfrentaram hoje em mais um jogo sensacional desta Copa. Com nada menos do que 38 finalizações da Bélgica e 14 dos EUA, ao término da prorrogação o placar final de 2 x 1 para a Bélgica acabou não refletindo o que foi o jogo diante das  inúmeras chances reais de gols para ambos os lados. Só o goleiro Howard, dos EUA, fez nada menos de que 16 defesas, muitas difíceis. Foi uma bela forma de homenagear a Copa com a repetição do duelo que abriu a 1ª Copa do Mundo, em 1930 no Uruguai.

Há 84 anos, aquele jogo que terminou com a vitória dos EUA por 3 x 0. Embora possa parecer, o resultado não foi surpresa diante das circunstâncias.

Por um lado a presença da Bélgica naquela Copa pode ser atribuída exclusivamente à interferência de um de seus dirigentes – Rodolphe Seeldaryes - que também ocupava a vice-presidência da FIFA. Diante das dificuldades logísticas para viagens internacionais naquela época, a FIFA interferiu como pôde para trazer seleções europeias e, no fim, quatro toparam a epopeia: Bélgica, França, Romênia e Iugoslávia. Além das dificuldades em relação às longas viagens de navio nos primórdios do profissionalismo no futebol para chegar ao Uruguai, a seleção belga ainda chegou desfalcada de seu principal jogador, Raymond Braine, que não foi liberado pelo Sparta Praha, time em que atuava na Tchecoslováquia.

Por outro lado, o selecionado dos EUA naquela época foi constituído principalmente por imigrantes mais familiarizados com o futebol, em sua maioria escoceses, como Bart McGhee, autor de dois gols naquela partida. O primeiro deles por poucos minutos não entrou para a história como o primeiro tento marcado nas Copas [1].

Hoje, 1º de julho de 2014, as duas seleções voltaram a campo para travar o seu segundo confronto na história das Copas. Após um empate sem gols no tempo normal, a Bélgica conseguiu confirmar o ligeiro favoritismo e garantiu a vitória por 2 x 1 na prorrogação em um jogo recheado de emoções.

Em comum entre os dois jogos distantes no tempo, o fato da seleção dos EUA ser constituída em sua maioria por descendentes de imigrantes, latinos e europeus, motivando reações contrárias por parte de uma ala conservadora daquele país em uma verdadeira batalha contra o futebol. Nos últimos dias, a colunista Ann Coulter colocou mais lenha nesta fogueira ao publicar um artigo condenando o interesse da população local por este esporte. Para ela, o interesse pelo futebol seria um “sinal do declínio moral da nação".  

Esta oposição ao crescimento do interesse pelo futebol nos EUA não algo recente. Franklin Foer, em seu livro Como o Futebol Explica o Mundo, já abordava este aspecto como parte integrante de uma “guerra cultural” que opunha, nos anos 1980, conservadores que defendiam a moral de um lado, contra os liberais que apoiavam a modernidade e o pluralismo de outro. Neste contexto, a ala conservadora criou até um lobby antifutebol, que contava com importantes colunistas e comentaristas. Como exemplo da atuação deste lobby, pode-se citar Tom Weir, do USA Today, que procurava estreitar os laços entre os legítimos representantes dos EUA com a recusa ao futebol ao afirmar que “detestar esse esporte é mais norte-americano do que a torta de maçã, dirigir uma picape ou passar as tardes de domingo zapeando na TV”  


Diante disso, resta desejar que o belo legado que a seleção dos EUA deixou nesta Copa com Howard, Dempsey e Jones sirva como um importante golpe contra este grupo contrário ao desenvolvimento do futebol naquele país. O mundo agradecerá.


[1] O primeiro gol na história das Copas acabou sendo marcado pelo francês Laurent aos 19 minutos do 1º tempo, no jogo entre França e México, que foi disputado simultaneamente ao EUA x Bélgica. O gol de McGhee foi anotado aos 22 do 1º tempo.