sexta-feira, 17 de junho de 2016

Rogers e o combate à homofobia no futebol

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Bradley e sua braçadeira de capítão em homenagem às vítimas do massacre na Boate Pulse (


Pela Copa América Centenário, na última quinta-feira (16/6) tivemos o primeiro jogo das quartas-de-final disputado entre os EUA e o Equador, vencido pela equipe anfitriã por 2 x 1. Antes de começar o jogo, o estádio inteiro respeitou um minuto de silencio pelos mortos no massacre ocorrido na boate Pulse, famosa pelo público LGBT, em Orlando (EUA) no último final de semana. Em campo, o meia Michael Bradley, como forma de demonstrar seu apoio à causa, ostentava a braçadeira de capitão com as cores do arco-íris, marco mundial do movimento LGBT.

A repercussão desse massacre homofóbico dentro do ambiente tradicionalmente conservador que é o futebol acaba adquirindo um caráter ainda mais importante. Vale lembrar que o esporte mais popular do planeta é extremamente atrasado em relação ao trato com a diversidade e as provocações entre torcedores no mundo inteiro são exemplares em demonstrar como o ambiente do futebol ainda tem muito a evoluir. No Brasil, só para citar um único exemplo, as torcidas dos principais clubes costumam gritar um uníssono “bicha” quando o goleiro adversário corre para cobrar tiro de meta.

De fato, o futebol costuma refletir a homofobia presente no mundo atual e o maior exemplo disso é a dificuldade que qualquer jogador homossexual tem em assumir sua condição publicamente.

Robbie Rogers, em jogo pela seleção dos EUA

Nesse cenário, torna-se muito importante quando nos deparamos com algum jogador que consiga encarar esse ambiente e efetivamente “sair do armário”. Um dos poucos casos foi do meia estadosunidense Robbie Rogers, com passagens pela seleção dos EUA e que  quando estava jogando no competitivo futebol inglês em 2013, com apenas 25 anos, fez um relato em seu blog pessoal assumido ser homossexual e declarando que estava encerrando a sua carreira prematuramente:
 “Na sociedade atual ser diferente te faz corajoso. Para superar seus medos você precisa der forte e ter fé em seus propósitos', escreveu ele, contando como teve de aprender a conviver com o medo da rejeição: 'Por 25 anos eu tive medo, medo de mostrar quem eu realmente era (...) medo de que as pessoas que eu amo se afastassem de mim se soubessem meu segredo. Medo de que meu segredo atravessasse o caminho dos meus sonhos. O sonho da uma Copa do Mundo, o sonho das Olimpíadas, o sonho de deixar minha família orgulhosa. O que seria da vida sem esses sonhos? Eu poderia viver sem eles?”.

Felizmente, meses depois acabou retornando aos gramados para defender o Los Angeles Galaxy, um dos times mais vitoriosos da MLS (a liga de futebol norte-americano), fato que mereceu uma boa reportagem do Trivela (http://trivela.uol.com.br/mais-uma-grande-vitoria-na-carreira-de-robbie-rogers/)

Desde então, Rogers tem sido um importante porta-voz LGBT no conservador ambiente do futebol, chegando a dizer que caso seja convocado para jogar as próximas Copas do Mundo que serão disputados em países que possuem restrições aos homossexuais, como a Rússia e o Catar, ao invés de boicotar, ele iria aproveitar para escancarar ainda mais essa questão, afirmando que:

"Se eu tivesse que ir para a Rússia ou para o Catar, eu iria sim e seria extremamente “flamboyant” (...) Eu acho que o que aprendi com a minha experiência de sair do armário e estar presente ali no vestiário é que isso é um discurso mais forte do que um boicote ou algo do tipo".

A atitude e luta de Rogers, assim como a solidariedade do capitão dos EUA Bradley na Copa América devem ser enaltecidas, ainda mais em tempos como os atuais, quando temos observado a propagação de discursos homofóbicos e racistas de Bolsonaros da vida. O recente massacre na Boate Pulse ou ainda o assassinato de professores gays no interior da Bahia, cujos corpos foram encontrados carbonizados, são reflexo direto dessa propagação de ódio à diversidade sexual.

Esperamos que algum dia a homofobia seja extirpada não só do careta ambiente do futebol, como de toda sociedade. Mas até lá temos um longo caminho, como a exemplar história de Rodgers demonstra. 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Irlanda do Norte não é Brasil

Bandeira da torcida da Irlanda do Norte na Eurocopa 2016

Após mais um vexame da seleção brasileira, agora na Copa América, que culminou com a demissão do técnico Dunga, as redes sociais foram povoadas com uma série de piadas e “memes” (confesso que até hoje não entendo muito o conceito disso) sacaneando o escrete canarinho e sua atual decadência.

Uma dessas imagens propagadas mostrava a torcida da Irlanda do Norte na Eurocopa desse ano com uma bandeira semelhante a do Brasil com o escrito “We aren’t Brazil” numa suposta alusão aos 7 x 1, que seria usada no jogo contra a Alemanha, que ainda será realizado. Sinal inequívoco da seleção brasileira ter virado motivo de chacota mundial, de acordo com as piadas que rodaram as redes sociais.

Entretanto, embora haja motivos de sobra para a seleção do Brasil deixar de ser respeitada mundialmente (principalmente se lembrarmos que o atual presidente da CBF não tem viajado para o exterior para evitar ser preso), a história real dessa bandeira da torcida da Irlanda do Norte é um pouco diferente do que pode parecer num primeiro momento.

Trata-se da versão de uma música já conhecida que a torcida norte-irlandesa canta nos estádios há muitos anos em referência à seleção do seu país de 1982, quando surpreendeu na Copa do Mundo e conseguiu classificação para a segunda fase em primeiro lugar em um grupo que tinha a Espanha, a Iugoslávia e Honduras (teve uma vitória histórica contra a anfitriã Espanha com gol de Armstrong: https://www.youtube.com/watch?v=pgmfeuB9Txs ).

A referida canção, que desde então tem sido celebrada pelos norte-irlandeses e pode ser escutada em diversas versão no YouTube, como essa em que aparece a letra (https://www.youtube.com/watch?v=O6ia9drgL7s) refere-se, portanto,ao fato de que a seleção da Irlanda do Norte podia não ser “aquela” seleção dos sonhos do Brasil de 1982, mas dava muito orgulho aos norte-irlandeses. 

Oh my eyes have seen the glory of Espana '82
When little Northern Ireland showed what we could do
Now Lawrie is our leader and we’re coming after you
And that is why we sing
We’re not Brazil
We Northern Ireland
We’re not Brazil
We Northern Ireland (...)


Tal como outras torcidas britânicas, a torcida da Irlanda do Norte gosta muito de entoar cânticos no estádio e essa é mais um bastante representativo, como o vídeo abaixo, de 2006 (ou seja, 8 anos anos dos 7 x 1), pode comprovar: https://www.youtube.com/watch?v=Gy4mK0my04E

Pode-se concluir que, de modo algum, a referência a essa canção refere-se pejorativamente à seleção brasileira como apareceu em algumas redes sociais, mas sim é mais uma grata homenagem do mundo àquela seleção brasileira de 1982.  


Que a seleção brasileira consiga voltar a inspirar outras torcidas, ainda que isso seja muito difícil de imaginar no atual cenário.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Sócrates, Brasileiro de Renome



Nos últimos tempos tem sido cada vez mais comum diferentes torcidas de times como a do Vasco, do Santa Cruz e do Corinthians se manifestarem politicamente nos estádios, se posicionando contra roubo de merenda, monopólio de determinada rede de televisão e, principalmente, contra o golpe.

Assistindo esse momento atual, lembrei-me imediatamente do jogador brasileiro mais politizado que vi jogar: Sócrates, que levava Brasileiro no nome e na alma. Não separo jogador dentro e fora de campo. Me interesso pelo que pensa, o que faz cada craque que vi jogar. E Sócrates, sem dúvida, foi um jogador diferenciado que se destacava não só pelo futebol refinado, que tinha no toque de calcanhar sua marca registrada, mas também pela sua autenticidade, sua postura fora de campo e seu interesse em causas políticas e sociais.

Sócrates chegou no Corinthians no final da década de 1970,  sob a direção do lendário Vicente Matheus. Além do fato de ter feito medicina em Ribeirão Preto enquanto já se destacava no Botafogo da mesma cidade, tendo se sagrado artilheiro do campeonato paulista de 1976,  o “Doutor” (como passou a ser conhecido) tinha outra peculiaridade: seu gosto por música brasileira, passando desde a música caipira de raiz até a MPB.

Como resultado, em 1980 gravou um disco com clássicos do sertanejo de raiz paulista. Com 12 músicas, merece destaque “Luar do Sertão”, (https://www.youtube.com/watch?v=zwqAvhkUtk4), um verdadeiro hino do sertanejo, de autoria de Catulo da Paixão Cearense com João Pernambuco (embora haja uma certa polêmica em torno disso (1).

Coincidentemente, foi após a gravação desse disco que seu viés mais politizado foi se tornando mais conhecido. A partir de 1981, já sob a direção do Waldemar Pires, e com o time enfrentando uma crise que levou-o a disputar a Taça de Prata no campeonato brasileiro de 1982 (2), Sócrates, ao lado de um jovem diretor de futebol e sociólogo Adilson Monteiro Alves,  liderou um movimento dentro do time que acabou conhecido como “Democracia Corinthiana” (nome batizado pelo publicitário  Washington Olivetto). Basicamente esse movimento se consistia no fato de todas as decisões do time passarem a ser decididas pelo voto, que incluía desde os principais jogadores até mesmo o roupeiro ou massagista. Isso tornou-se simbolicamente mais relevante pelo fato de que naquela época o país ainda vivia sob uma ditadura militar.

Após encantar o mundo com a seleção de 1982, Sócrates, juntamente com outros líderes da Democracia Corinthiana como Casagrande e Wladimir, foram assumindo um protagonismo cada vez maior tanto dentro como fora de campo. Nessa época, durante as primeiras eleições diretas para governadores desde o golpe militar, eles chegaram a entrar em campo com a mensagem "Dia 15 Vote" na camisa, algo que gerou repreensão da ditadura na época.

Sócrates com a polêmica camisa conclamando a população a votar.

Outro episódio interessante deles nesse época foi a participação em um show da Rita Lee em São Paulo, retratada no filme Democracia em Preto e Branco, narrado pela própria Rita (3): https://www.youtube.com/watch?v=RX_koIhCYc4. Vale a pena conferir.

Em 1984, Sócrates participou intensamente da campanha pelas Diretas Já, que visava aprovar a emenda constitucional Dante de Oliveira para reestabelecer as eleições diretas para presidente da república. Como naquela época já havia interesse de times do exterior pelo futebol dele, Sócrates chegou a manifestar publicamente em um dos imensos comícios pelas Diretas que se a emenda fosse aprovada, ele não iria embora do país: https://www.youtube.com/watch?v=XvgK587hV3M .

Infelizmente a emenda foi rejeitada, o povo teve que esperar mais tempo para voltar a eleger um presidente, e o Brasil perdeu o futebol do Doutor, que foi exibir seu talento nos gramados italianos, contratado pela Fiorentina.

Antes de ir embora, ainda deixou registrado a sua paixão pelo Corinthians em uma música de sua autoria e gravada em parceria com Simone Guimarães: “Festa Corinthiana”: https://www.youtube.com/watch?v=x68ZbhIMRaE

Quando retornou, depois de “quase” defender a Ponte Preta (chegou a aparecer na Capa da revista Placar com a camisa da macaca), passou pelo Flamengo e pelo Santos antes de se despedir do futebol no Botafogo (SP), clube que o revelou.

Recebeu ainda diversas homenagens, como uma bela canção do santista José Miguel Wisnik, gravada por Ná Ozétti: Sócrates Brasileiro: https://www.youtube.com/watch?v=JBpBlHHUjG4

"Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira
Deu um pique filosófico ao nosso futebol
O sol caiu sobre a grama e se partiu
Em cacos de cristais
As cores vestiram os nomes
E fez-se a luta entre os homens
Até os apitos finais (disseram os deuses imortais) (...)"


Mesmo fora dos gramados, continuou durante muito tempo contribuindo por uma visão crítica e politizada do futebol e da sociedade através de artigos que escrevia para a revista Carta Capital ou ainda em alguns programas esportivos, sempre como crítico da estrutura corrupta existente na CBF e nas federações estaduais de futebol.

Infelizmente, em 2011, com 57 anos, Sócrates acabou falecendo vítima de uma infecção generalizada causada por bactéria, muito provavelmente consequência do consumo prolongado do álcool.

Perdeu o país um dos seus maiores representantes e que hoje, certamente, estaria novamente empenhado na luta pela democracia e contra o golpe que infelizmente querem impor às custas de direitos sociais arduamente conquistados. Dentro e fora de campo, o Brasil sente muita a falta do Sócrates.  

(2): naquela época, os campeonatos estaduais anteriores serviam para definir quais clubes participariam da Taça de Ouro (equivalente à primeira divisão) e da Taça de Prata (equivalente à segunda divisão). Como o Corínthians ficou apenas em oitavo no Campeonato Paulista de 1981, acabou não se classificando direto para a Taça de Ouro. Entretanto, o regulamento previa que quatro times da Taça de Prata subissem durante o campeonato, e o Corinthians, já com influência da Democracia Corinthiana, acabou sendo um desses 4.


(3) quem tiver Netflix, pode conferir o filme “Democracia em Preto e Branco” na íntegra. Ou até mesmo no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=qGwZ7St7v34

domingo, 8 de maio de 2016

Garrincha, a estrela não tão solitária ao lado da Elza

Elza e Garrincha na década de 1960 (fonte: http://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,fotos-historicas-garrincha-e-elza-soares,11740,0.htm)

A relação entre música e futebol tem como mais representativo ícone a história entre Garrincha e Elza Soares entre os anos 1960 e 1970.

Após se conhecerem no final de 1961 em um evento para impulsionar a eleição do Garrincha como “Jogador Mais Popular do Rio”, em 1962 se apaixonaram e iniciaram um caloroso relacionamento. Naquela época, ambos estavam em carreira ascendente: enquanto Elza Soares despontava como artista de primeira grandeza da música nacional, escalada para representar o Brasil em um evento cultural que ocorreria no Chile paralelamente à realização da Copa do Mundo, Garrincha alcançava o auge da sua carreira: bicampeão mundial pela seleção brasileira sendo eleito o craque da Copa, campeão carioca e campeão do Torneio Rio-São Paulo pelo Botafogo.

Mas mesmo com altos e baixos, essa relação foi ficando cada vez mais intensa e até mesmo as carreiras do futebolista e da cantora passaram a se misturar. Fonte de inspiração de diversas canções, desde o início da carreira como uma marchinha gravada por Angelita Martinez em 1959, até a sua decadência, como a "Balada nº 7" do Moacir Franco, Garrincha chegou a compor dois sambas gravados pela Elza Soares. Um deles foi “Receita de Balanço”: Vamos balançar, cantando...vamos balançar, sambando..Vamos balançar, e deixando a tristeza da vida pra lá”. O outros foi “Pé Redondo”, esta incluída no disco “Um Show de Elza”, gravado em 1965.

Além disso, Garrincha serviu de inspiração para inúmeras canções após o término de sua carreira, como a clássica “Futebol", do Chico Buarque, de 1989.

Entretanto, o relacionamento entre Garrincha e Elza Soares não era bem visto por uma sociedade machista e a barra pesava principalmente sobre a cantora. Por um lado, era criticada pelos eternos falsos moralistas de plantão como se fosse a responsável pelo fim do casamento já fracassado de Garrincha com Nair. Por outro lado, os amigos do craque também passaram a torcer o nariz para aquela relação já que ela, ciente de que o maior adversário do Mane era o alcoolismo, chegava a procura-lo de boteco em boteco para trazê-lo de volta, tentando impedir que ele caísse na tentação de beber.

Com isso, a guerreira Elza, acostumada com a vida dura desde que nasceu enfrentou mais essa barra em sua vida e mesmo enfrentando problemas no relacionamento com o craque já consumido pelo alcoolismo, não se furtou a tentar de tudo para recuperar o craque quando se aproximava o final da carreira, chegando a leva-lo para a Itália em 1970 para tentar afastá-lo das bebidas enquanto tocava sua carreira na Europa, afastando-se do Brasil na época em que a ditadura apertava o cerco por aqui, perseguindo inclusive vários artistas.

E foi essa garra incrível que pude presenciar no show que ela deu na última sexta-feira, dia 6 de maio, no Teatro Guaíra em Curitiba. Cantando principalmente o intenso repertório de inéditas do disco “Mulher do Fim do Mundo”, Elza mostrou que é uma artista que sabe se reinventar a cada ciclo, interpretando músicas que tratam de assuntos como violência contra a mulher, racismo, preconceitos contra população de periferia entre outros.
Elza Soares no show "Mulher do Fim do Mundo" (foto minha)

E para finalizar o show (e o disco), ela, que enfrentou mortes trágicas de seus filhos (incluindo o único que teve com o Garrincha), homenageia a própria mãe, que faleceu em acidente de carro quando o seu companheiro-craque dirigia alcoolizado, na belíssima canção “Comigo”, de Rômulo Fróes e Alberto Tassinari, cantada à capela após uma sequência de sons distorcidos ( https://www.youtube.com/watch?v=k3CGdu_Dijw )

“Levo minha mãe comigo
embora já se tenha ido
Levo minha mãe comigo
talvez por sermos tão parecidos
Levo minha mãe comigo
de um modo que não sei dizer
Levo minha mãe comigo
pois deu-me seu próprio ser


Que a garra dessa cantora incrível sirva de exemplo a todos! E de quebra ainda homenageia as mães guerreiras desse país. 

terça-feira, 3 de maio de 2016

Kasabian e o incrível Leicester


Tom Meighan e Sergio Pizzorno, do Kasabian, no estádio do Leicester City
No dia 2 de maio de 2016 o incrível Leicester City, mesmo sem entrar em campo, conseguiu seu primeiro título da Premier League com duas rodadas de antecedência ao ver o Tottenhan ceder empate ao Chelsea

Definitivamente foi um feito histórico para os foxes (apelido do Leicester City): trata-se do primeiro título do competitivo campeonato inglês com seus 132 anos de vida de um time considerado pequeno, que até um ano atrás estava brigando contra o rebaixamento. Nessa temporada, de quebra, conseguiu deixar para trás rivais muito mais poderosos economicamente como Tottenhan, Manchester United, Liverpool,  Arsenal, Chelsea e Manchester City.

Além do meia argelino Mahrez (considerado o melhor jogador do campeonato), do francês Kanté, do zagueiro jamaicano e capitão do time Morgan e do artilheiro Vardy, certamente um dos principais responsáveis por essa façanha foi o técnico italiano Claudio Ranieri, que antes do começar a temporada tinha como único objetivo escapar do rebaixamento. Com esse título, Ranieri certamente virou herói em Leicester, a ponto de leva-lo a lágrimas com homenagens dos seus torcedores antes mesmo da consagração final (https://www.youtube.com/watch?v=BWeg1lQp7Ug).

A trajetória desse time pode ser comparada a de outro time pequeno clube da mesma região que há quase 40 anos também surpreendeu ao conquistar não só o campeonato inglês em sua primeira temporada após subir da 2ª divisão, como também o bicampeonato europeu da Copa dos Campeões: o Nottinghan Forest.

Assim como o Leicester, o Forest também tinha como um dos responsáveis pelas conquistas um técnico surpreendente, no caso, Brian Clough. Sua trajetória anterior à chegada no Nottinghan Forest, quando foi campeão pelo pequeno Derby County e acabou fracassando no Leeds, foi muito bem retratada no filme “Maldito Futebol Clube” (“The Damned United”), disponível também no YouTube em versão dublada: https://www.youtube.com/watch?v=_p_fZ6PPba0. Atualmente, a rodovia que liga Derby a Nottinghan homenageia o herói desses dois clubes como seu nome: Brian Clough, falecido em 2004.
Rodovia Brian Clough, que liga Nottinghan a Derby, na mesma região de Leicester
O título deste ano do Leicester City foi muito comemorado por uma das mais famosas bandas de indie rock da atualidade: Kasabian. Oriundo de Leicester, os seus integrantes são torcedores do Leicester e sempre tiveram uma profunda relação com o futebol. Em 2010, a canção I’m on Fire foi escolhida para tocar na abertura das transmissões dos jogos do campeonato inglês e serviu para impulsionar o sucesso dessa música e do próprio Kasabian. (https://www.youtube.com/watch?v=agVpq_XXRmU). Essa canção também servia para animar a torcida dos Foxes após gols do Leicester, como se pode visualizar nesse vídeo de 2009 no jogo contra o Barnsley: https://www.youtube.com/watch?v=u_bQAJ-6Ig4.

Ainda naquele ano, o vocalista Tom Meighan já tinha sido escolhido para lançar a camisa da seleção da Inglaterra, em show na França às vésperas da Copa de 2010, em evento promovido pela Umbro. Naquela ocasião ele comentou: “É sensacional sermos a primeira banda a lançar uma camisa da Inglaterra. E nada melhor do que fazer isso na casa de um dos nossos grandes rivais do futebol”.

Ciente dessa empatia entre time o banda de rock, no início da vitoriosa temporada 2015-16, Ranieri resolveu buscar inspiração junto ao Kasabian e pediu que “Fire” fosse tocada no King Power Stadium (estádio dos foxes) do duelo contra o Sunderland. Com a vitória por 4 x 2, Ranieri fez o seguinte comentário: “When you go on the pitch and you hear the song from Kasabian, that means they want warriors”

Quando descobriu que seu som tinha motivado os jogadores, o guitarrista Serge Pizzorno ficou feliz da vida: “É o elogio definitivo. Eu poderia abrir mão de todos os meus prêmios por isso”, comentou em entrevista à revista britânica NME (http://www.nme.com/news/kasabian/87453). Interessante que além de torcedor do Leicester, Serge Pizzorno costuma participar de partidas beneficentes e até já fez gol em um amistoso entre Inglaterra e seleção do Resto do Mundo em 2012 (ele jogando pelo Resto do Mundo): https://www.youtube.com/watch?v=JPw7c0ChdBk.

Agora, para encerrar essa vitoriosa parceria, Kasabian anunciou que fará um show para celebrar a recente conquista no dia 28 de maio no King Power Station (https://www.youtube.com/watch?v=5E3d-4nZJ_U). Isso que é parceria bem-sucedida!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Rumo do São Paulo de Hélio Ziskind

Capa do Disco Coração de 5 Pontas


Hoje, 25 de janeiro, na mesma data em que a cidade de São Paulo faz 462 anos, marca também o aniversário do time que leva seu nome. Fundado em 25 de janeiro de 1930, o São Paulo completa hoje 86 anos.

Para celebrar o time que teve como um dos destaques no jogo de despedida do Rogério Ceni shows de rock com diversos músicos tricolores, vale citar aqui outro importante registro musical para o São Paulo: trata-se de um disco bem criativo do Hélio Ziskind, que conta em ritmo canções para crianças, a história do Tricolor do Morumbi (1). Com o nome de “Coração de 5 Pontas”, trata-se de um projeto de Rui Branquinho, publicitário tricolor que volta e meia aparece com alguma boa ideia,

Hélio Ziskind é um desses músicos da vanguarda paulistana que, na década de 1970 lançou, ao lado de gente como Luiz Tatti, Paulo Tatti e Ná Ozetti, o grupo Rumo. Entre 1981 e 1991, o Rumo lançou sete discos. Tinha como uma das características principais a boa dose de experimentalismo. 

A partir da década de 1990, já em carreira solo, Hélio Ziskind passa a direcionar a maior parte da sua criação para o público infantil. Entre diversos discos de histórias e músicas infantis, merece destaque o trabalho de composição para o Castelo Ra-tim-bum, excelente programa infantil da TV Cultura durante parte dos anos 1990 e 2000. Quem não se lembra do som de abertura: bum-bum-castelo-ratim-bum? ( https://www.youtube.com/watch?v=Vrf4mdnOi10 )

Outro infantil de grande sucesso de autoria do Ziskind foram as canções para a Turma do Cocoricó. Tá na hora do Co-co-ri-cóooo: https://www.youtube.com/watch?v=jFDyRft_y5Y

Seguindo nessa toada, em 2009, ele compôs as músicas para o disco com a história do São Paulo que, mesmo sendo destinado ao público infantil, certamente atraiu o público adulto, principalmente torcedores tricolores. Trata-se de um registro da história do clube de uma maneira diferente e divertida.

O disco começa com o Foguete tricolor:

9, 2, 9, 3, 0, 5 aperte o cinto que o foguete tricolor vai decolar
Lá vai o foguete tricolor voando pelo céu no espaço sideral
Uau, colossal (2x)
Na cabine do foguete o piloto digita feito louco no seu computador
"Velhinho Sabereta!
Fala mestre.
Tô aqui assim, curioso.
Curioso com o que mestre?
A vida, como era a vida, antes do São Paulo existir? Havia vida?
Hum, vamo vê, vamo vê"
Enquanto o velhinho trabalha eu olho pra janela
E vejo no espaço
A bola, ela, a bola
Amada bola, pequeno sol do universo futebol
Como planetas apaixonados giramos ao seu redor
Amada bola, pequeno sol do universo futebol
Como planetas apaixonados giramos ao seu redor
"Sim mestre, havia vida.
Atenção, reprogramar a direção, buraco negro, aproximar, entrou."
Vamos passear na avenida do tempo
Vamo ver, vamo ver como tudo começou (3x)

Iniciando na sua pré-história, com as conquistas do Paulistano que deram origem ao time do São Paulo, o disco vai passando por várias fases, como a primeira conquista em 1931, com apenas 1 ano de vida: 

Bebê, o que você na mão
Não é mamadeira ,não é não
É uma da taça da cor do sol
Que eu ganhei do futebol

Depois vai desfilando uma história envolvente com informações detalhadas sobre os ídolos, os grandes jogos e as principais conquistas do Clube até o final dos anos 2010, com os títulos daquela época. Para fazer justiça a todos ídolos, o  disco finaliza citando diversos de nomes que fizeram parte da história:... nomes para não esquecer (como diria o próprio Hélio Ziskind).

Esse disco, logo que foi lançado, mereceu uma resenha do Vítor Biner que vale a pena conferir: http://blogdobirner.virgula.uol.com.br/2009/11/28/coracao-de-5-pontas/

E finalizo entregando minha torcida: que a inspiração de artistas como o Hélio Ziskind reflita no time atual para que volte aos bons tempos...

(1) Esse disco ganhei do Zedu, famoso tricolor, dono da loja de brinquedos educativos Tatu Bolinha, em Campinas, SP


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O Retorno do Santa Cruz à elite (e o inspirado Siba)

Santa Cruz, supercampeão pernambucano em 1976. Em pé, é possível ver Carlos Alberto Barbosa (que faleceu tragicamente durante uma partida de futebol em 82), Levir Culpi e Givanildo (ambos técnicos atualmente), Agachado, no centro está Nunes e ao lado, Volnei, outro grande atacante daquela época. 

Todo início de temporada, é comum os times fazerem jogos amistosos como preparação. Mesmo contando em muitos casos com atrativos como estreias de jogadores recém contratados, normalmente esses jogos não atraem muita atenção do grande público.

Mas no próximo domingo, dia 24 de janeiro de 2016, um amistoso em especial deve receber grande público: no Arruda, no Recife, o Santa Cruz enfrentara o Flamengo.

Nunca morei no Recife, mas basta conhecer um pouco a empolgação da torcida do Cobra-coral (1) para chegar a essa conclusão.

Um dos motivos é que nesse jogo haverá uma homenagem especial ao ex-jogador Nunes. Trata-se de um jogador que entrou na história de ambos os clubes. Nos tempos áureos do Santa Cruz, Nunes ganhou títulos como o bisupercampeonato (2) pernambucano de 1976-1977, além de ter feito muitos gols que contribuíram para as grandes campanhas do time pernambucano nos campeonatos brasileiros. No Flamengo entrou definitivamente para a história ao marcar, em 1980, o gol decisivo do primeiro campeonato brasileiro do rubro-negro, e no ano seguinte, o artilheiro fez outros dois gols na final do Mundial contra o Liverpool. Depois ainda foi importante no título brasileiro de 1982.

Outro motivo para confiar na empolgação da torcida do Santa Cruz é que a esse ano que se inicia marca o retorno do tricolor à elite do futebol brasileiro depois de uma década, tempo em que chegou a amargar diversos descensos, chegando a disputar a série D do Brasileiro (4ª divisão). E mesmo na época de vacas magras, sua torcida sempre compareceu em massa no estado do Arruda, dando ao time recordes de públicos em vários anos.

Para se ter uma ideia, no campeonato brasileiro da série B de 2007, ano em que o Santa Cruz foi rebaixado para a série C, dos 10 maiores públicos daquela campeonato, quatro foram de seus jogos em casa.

Aquela campanha, mesmo ruim, não só contou com presença do público, como serviu de inspiração para um dos seus mais relevantes torcedores do meio artístico atualmente: Siba, legítimo representante do Mangue Beat, conhecido na década de 1990 com a banda Mestre Ambrósio, conseguiu transformar sua desilusão em inspiração para compor uma bela canção relembrando o que muitos prefeririam esquecer. A música “Meu Time” encarando com muito humor o fato do cobra-coral ter sido rebaixado para a terceira divisão naquele ano (mal sabia que o time ainda amargaria outro rebaixamento).

A divertida letra de “Meu Time” segue abaixo:. 

Meu time foi rebaixado
Pra terceira divisão
Ninguém pode ganhar campeonato
Se o juíz não tem mãe nem coração

Meu zagueiro na bola dividida
Quase mata de um chute o centroavante
Só por isso o juiz ignorante
Expulsou o coitado da partida
Sem pensar que quem tem perna comprida
Faz a falta sem ter a intenção
E pra mim o castigo da expulsão
Só se aplica se houver assassinato
E ninguém pode ganhar campeonato
Se o juíz não tem mãe nem coração

Esse infame corrupto salafrário
Tem que ser fuzilado na parede
Toda vez que vem bola em nossa rede
Ele quer marcar gol para o contrário
Alguém prenda esse estelionatário
Que o castigo mais leve pra ladrão
É passar uns dez anos na prisão
Que se eu for castigar por certo eu mato
E ninguém pode ganhar campeonato
Se o juíz não tem mãe nem coração

Que me importa o goleiro não saber
Agarrar uma bola sem soltar?
Que me importa o zagueiro manquejar
Ter a perna zambeta e não correr?
Que me importa atacar ou defender?
Todos jogam na mesma posição
Quem encontra defeito em meu timão
Ou é cego, ou é doido, ou é gaiato
E ninguém pode ganhar campeonato
Se o juíz não tem mãe nem coração

Todo dia os atletas do meu time
Estão na sede jogando dominó
No domingo tem brega ou tem forró
Rifa, bingo, não tem quem não se anime
Não tem time que ao menos se aproxime
Do preparo da minha escalação
Para o ano meu time é campeão
Nem que jogue com prego no sapato
E ninguém pode ganhar campeonato
Se o juíz não tem mãe nem coração

Recentemente no programa Cultura Livre, ele apresentou essa música. Para ouvir, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=KNPupehK6GA


Que em 2016, os bons tempos dos anos 1970 estejam de volta, quando o Santa Cruz chegou a semifinal do Campeonato Brasileiro (1975, após eliminar o Flamengo de Zico em pleno Maracanã) e contava com jogadores como Ramon ou Nunes. A sua torcida que sempre apoiou o time mesmo dos tempos ruins, e Siba em especial, merecem. Quem sabe ele não se inspira a compor outra música, agora para celebrar melhores tempos.

Notas:  (1) Cobra-coral é o mascote/apelido do Santa Cruz
(2) Supercampeonato é como os estaduais de Pernambuco que chegam na fase decisiva com os três principais times (Santa Cruz, Náutico e Sport) disputando em igualdade de condições.