segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Rumo do São Paulo de Hélio Ziskind

Capa do Disco Coração de 5 Pontas


Hoje, 25 de janeiro, na mesma data em que a cidade de São Paulo faz 462 anos, marca também o aniversário do time que leva seu nome. Fundado em 25 de janeiro de 1930, o São Paulo completa hoje 86 anos.

Para celebrar o time que teve como um dos destaques no jogo de despedida do Rogério Ceni shows de rock com diversos músicos tricolores, vale citar aqui outro importante registro musical para o São Paulo: trata-se de um disco bem criativo do Hélio Ziskind, que conta em ritmo canções para crianças, a história do Tricolor do Morumbi (1). Com o nome de “Coração de 5 Pontas”, trata-se de um projeto de Rui Branquinho, publicitário tricolor que volta e meia aparece com alguma boa ideia,

Hélio Ziskind é um desses músicos da vanguarda paulistana que, na década de 1970 lançou, ao lado de gente como Luiz Tatti, Paulo Tatti e Ná Ozetti, o grupo Rumo. Entre 1981 e 1991, o Rumo lançou sete discos. Tinha como uma das características principais a boa dose de experimentalismo. 

A partir da década de 1990, já em carreira solo, Hélio Ziskind passa a direcionar a maior parte da sua criação para o público infantil. Entre diversos discos de histórias e músicas infantis, merece destaque o trabalho de composição para o Castelo Ra-tim-bum, excelente programa infantil da TV Cultura durante parte dos anos 1990 e 2000. Quem não se lembra do som de abertura: bum-bum-castelo-ratim-bum? ( https://www.youtube.com/watch?v=Vrf4mdnOi10 )

Outro infantil de grande sucesso de autoria do Ziskind foram as canções para a Turma do Cocoricó. Tá na hora do Co-co-ri-cóooo: https://www.youtube.com/watch?v=jFDyRft_y5Y

Seguindo nessa toada, em 2009, ele compôs as músicas para o disco com a história do São Paulo que, mesmo sendo destinado ao público infantil, certamente atraiu o público adulto, principalmente torcedores tricolores. Trata-se de um registro da história do clube de uma maneira diferente e divertida.

O disco começa com o Foguete tricolor:

9, 2, 9, 3, 0, 5 aperte o cinto que o foguete tricolor vai decolar
Lá vai o foguete tricolor voando pelo céu no espaço sideral
Uau, colossal (2x)
Na cabine do foguete o piloto digita feito louco no seu computador
"Velhinho Sabereta!
Fala mestre.
Tô aqui assim, curioso.
Curioso com o que mestre?
A vida, como era a vida, antes do São Paulo existir? Havia vida?
Hum, vamo vê, vamo vê"
Enquanto o velhinho trabalha eu olho pra janela
E vejo no espaço
A bola, ela, a bola
Amada bola, pequeno sol do universo futebol
Como planetas apaixonados giramos ao seu redor
Amada bola, pequeno sol do universo futebol
Como planetas apaixonados giramos ao seu redor
"Sim mestre, havia vida.
Atenção, reprogramar a direção, buraco negro, aproximar, entrou."
Vamos passear na avenida do tempo
Vamo ver, vamo ver como tudo começou (3x)

Iniciando na sua pré-história, com as conquistas do Paulistano que deram origem ao time do São Paulo, o disco vai passando por várias fases, como a primeira conquista em 1931, com apenas 1 ano de vida: 

Bebê, o que você na mão
Não é mamadeira ,não é não
É uma da taça da cor do sol
Que eu ganhei do futebol

Depois vai desfilando uma história envolvente com informações detalhadas sobre os ídolos, os grandes jogos e as principais conquistas do Clube até o final dos anos 2010, com os títulos daquela época. Para fazer justiça a todos ídolos, o  disco finaliza citando diversos de nomes que fizeram parte da história:... nomes para não esquecer (como diria o próprio Hélio Ziskind).

Esse disco, logo que foi lançado, mereceu uma resenha do Vítor Biner que vale a pena conferir: http://blogdobirner.virgula.uol.com.br/2009/11/28/coracao-de-5-pontas/

E finalizo entregando minha torcida: que a inspiração de artistas como o Hélio Ziskind reflita no time atual para que volte aos bons tempos...

(1) Esse disco ganhei do Zedu, famoso tricolor, dono da loja de brinquedos educativos Tatu Bolinha, em Campinas, SP


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O Retorno do Santa Cruz à elite (e o inspirado Siba)

Santa Cruz, supercampeão pernambucano em 1976. Em pé, é possível ver Carlos Alberto Barbosa (que faleceu tragicamente durante uma partida de futebol em 82), Levir Culpi e Givanildo (ambos técnicos atualmente), Agachado, no centro está Nunes e ao lado, Volnei, outro grande atacante daquela época. 

Todo início de temporada, é comum os times fazerem jogos amistosos como preparação. Mesmo contando em muitos casos com atrativos como estreias de jogadores recém contratados, normalmente esses jogos não atraem muita atenção do grande público.

Mas no próximo domingo, dia 24 de janeiro de 2016, um amistoso em especial deve receber grande público: no Arruda, no Recife, o Santa Cruz enfrentara o Flamengo.

Nunca morei no Recife, mas basta conhecer um pouco a empolgação da torcida do Cobra-coral (1) para chegar a essa conclusão.

Um dos motivos é que nesse jogo haverá uma homenagem especial ao ex-jogador Nunes. Trata-se de um jogador que entrou na história de ambos os clubes. Nos tempos áureos do Santa Cruz, Nunes ganhou títulos como o bisupercampeonato (2) pernambucano de 1976-1977, além de ter feito muitos gols que contribuíram para as grandes campanhas do time pernambucano nos campeonatos brasileiros. No Flamengo entrou definitivamente para a história ao marcar, em 1980, o gol decisivo do primeiro campeonato brasileiro do rubro-negro, e no ano seguinte, o artilheiro fez outros dois gols na final do Mundial contra o Liverpool. Depois ainda foi importante no título brasileiro de 1982.

Outro motivo para confiar na empolgação da torcida do Santa Cruz é que a esse ano que se inicia marca o retorno do tricolor à elite do futebol brasileiro depois de uma década, tempo em que chegou a amargar diversos descensos, chegando a disputar a série D do Brasileiro (4ª divisão). E mesmo na época de vacas magras, sua torcida sempre compareceu em massa no estado do Arruda, dando ao time recordes de públicos em vários anos.

Para se ter uma ideia, no campeonato brasileiro da série B de 2007, ano em que o Santa Cruz foi rebaixado para a série C, dos 10 maiores públicos daquela campeonato, quatro foram de seus jogos em casa.

Aquela campanha, mesmo ruim, não só contou com presença do público, como serviu de inspiração para um dos seus mais relevantes torcedores do meio artístico atualmente: Siba, legítimo representante do Mangue Beat, conhecido na década de 1990 com a banda Mestre Ambrósio, conseguiu transformar sua desilusão em inspiração para compor uma bela canção relembrando o que muitos prefeririam esquecer. A música “Meu Time” encarando com muito humor o fato do cobra-coral ter sido rebaixado para a terceira divisão naquele ano (mal sabia que o time ainda amargaria outro rebaixamento).

A divertida letra de “Meu Time” segue abaixo:. 

Meu time foi rebaixado
Pra terceira divisão
Ninguém pode ganhar campeonato
Se o juíz não tem mãe nem coração

Meu zagueiro na bola dividida
Quase mata de um chute o centroavante
Só por isso o juiz ignorante
Expulsou o coitado da partida
Sem pensar que quem tem perna comprida
Faz a falta sem ter a intenção
E pra mim o castigo da expulsão
Só se aplica se houver assassinato
E ninguém pode ganhar campeonato
Se o juíz não tem mãe nem coração

Esse infame corrupto salafrário
Tem que ser fuzilado na parede
Toda vez que vem bola em nossa rede
Ele quer marcar gol para o contrário
Alguém prenda esse estelionatário
Que o castigo mais leve pra ladrão
É passar uns dez anos na prisão
Que se eu for castigar por certo eu mato
E ninguém pode ganhar campeonato
Se o juíz não tem mãe nem coração

Que me importa o goleiro não saber
Agarrar uma bola sem soltar?
Que me importa o zagueiro manquejar
Ter a perna zambeta e não correr?
Que me importa atacar ou defender?
Todos jogam na mesma posição
Quem encontra defeito em meu timão
Ou é cego, ou é doido, ou é gaiato
E ninguém pode ganhar campeonato
Se o juíz não tem mãe nem coração

Todo dia os atletas do meu time
Estão na sede jogando dominó
No domingo tem brega ou tem forró
Rifa, bingo, não tem quem não se anime
Não tem time que ao menos se aproxime
Do preparo da minha escalação
Para o ano meu time é campeão
Nem que jogue com prego no sapato
E ninguém pode ganhar campeonato
Se o juíz não tem mãe nem coração

Recentemente no programa Cultura Livre, ele apresentou essa música. Para ouvir, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=KNPupehK6GA


Que em 2016, os bons tempos dos anos 1970 estejam de volta, quando o Santa Cruz chegou a semifinal do Campeonato Brasileiro (1975, após eliminar o Flamengo de Zico em pleno Maracanã) e contava com jogadores como Ramon ou Nunes. A sua torcida que sempre apoiou o time mesmo dos tempos ruins, e Siba em especial, merecem. Quem sabe ele não se inspira a compor outra música, agora para celebrar melhores tempos.

Notas:  (1) Cobra-coral é o mascote/apelido do Santa Cruz
(2) Supercampeonato é como os estaduais de Pernambuco que chegam na fase decisiva com os três principais times (Santa Cruz, Náutico e Sport) disputando em igualdade de condições. 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Se o Haiti é aqui, o Avaí também.

Na vitória (considerada zebra) dos EUA de 1 x 0 contra a Inglaterra em 1950, o autor do gol foi o imigrante haitiano Joe Gaetjens. Embora hoje esse resultado possa parecer normal, naquela época a seleção dos EUA era praticamente amadora e nesse confronto, todo o favoritismo estava com Inglaterra que pela primeira vez concordou em participar da Copa do Mundo. Essa vitória histórica resultou em filme, Duelo de Campeões (The Game of Their Lives), de David Anspaug (disponível no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=78JokICVNLc), que retrata bem o heroísmo desse feito.

Joe Gaetjens
Apesar de ser recebido como herói nos EUA, Gaetjens optou por seguir a carreira de futebolista no futebol francês e quatro anos depois, retornou ao Haiti e chegou a disputar as eliminatórias da Copa de 1954 pelo seu país natal.

Entretanto, após a chegada no poder de François Duvalier em 1957 (conhecido como Papa Doc), o Haiti passou a enfrentar um regime de terror. Pelo fato de ter apoiado um opositor, Gaetjens foi sequestrado e morto pelos Tontons Macoutes, a polícia política ligada à Papa Doc em 1964. Relatos posteriores dão conta de que o próprio Papa Doc, pessoalmente, foi quem matou Gaetjens na prisão.

Anos mais tarde, o Haiti voltou a obter destaque no cenário futebolístico ao conseguir a vaga da Concacaf (Confederação de Futebol da América Central, do Norte e Caribe) em dezembro de 1973 para disputar a Copa do Mundo de 1974. Naquela época, a fase final das eliminatórias foi disputada em sede única (no próprio Haiti) sob forte influência da ditadura haitiana, agora nas mãos de Baby Doc, que sucedeu a Papa Doc em 1971, mantendo o regime de terror. Consta que durante as eliminatórias, em um jogo decisivo contra Trinidad e Tobago, o árbitro, ameaçado de morte por Baby Doc, anulou cinco gols dos visitantes e o jogo terminou em 2 x 1 para o Haiti.

Na Copa de 1974, disputada em território alemão, na estreia do Haiti, depois de segurar empate sem gols no primeiro tempo contra a Itália, saiu na frente do placar no início do 2º tempo mas não conseguiu segurar o selecionado italiano e acabou derrotado por 3 x 1. Ao término da partida, o zagueiro Jean-Joseph foi pego no exame antidoping (foi a primeira Copa que passou a adotar esse procedimento) porque, inocentemente, tinha tomado remédio contra asma. Assim que foi divulgado o resultado e ele ter sido suspenso da Copa, a equipe de segurança do Haiti, sob as ordens diretas de Baby Doc, espancou violentamente este jogador por ele ter “envergonhado a história do país”, que sem Jean Joseph, foi goleado nas outras duas partidas naquela competição (7 x 0 para a Holanda e 4 x 1 para a Argentina).

Após retornar ao Haiti, Jean Joseth ainda permaneceu cerca de dois anos preso até que foi liberado para que pudesse reforçar a seleção haitiana nas eliminatórias para a Copa de 1978.

Jean Joseph (camisa escura no chão) em lance do fatídico jogo contra a Itália pela Copa de 1974.


Em 1986, quando Baby Doc fugiu do Haiti para se exilar na França, deixou como herança um dos países mais pobres do mundo e com piores indicadores sociais. Tal situação serviu de inspiração para uma bela canção de Gil e Caetano: “Haiti”, carro chefe do disco Tropicália 2, lançado em 1993, quando aquela país tentava se reestruturar no meio de total instabilidade política.

Aliado às tragédias políticas e sociais, um terremoto em 2010 devastou ainda mais o pequeno país caribenho, dizimando mais de 300.000 habitantes e deixando cerca de 1,5 milhões desabrigados. Alarmados e totalmente destituídos de esperanças, muitos haitianos se viram praticamente forçados a sair do país e recomeçar a vida em outro país, causando um movimento migratório que teve no Brasil, que lhes fornece visto humanitário, um dos principais destinos.

Desde então, esses imigrantes, assim como outros tantos no passado mais distante, passaram a fazer parte da história do Brasil e muito têm contribuído com seus esforços para refazer a vida por aqui. Foi comum vê-los trabalhando inclusive para erguer os estádios que serviram de sede para a Copa do Mundo (infelizmente nem sempre em condições dignas de trabalho).

Como se não bastasse todas as dificuldades, eles ainda enfrentam preconceito e manifestações xenofóbicas de parcela da população brasileira, que poderíamos chamar de “direita raivosa”.

Foi nesse contexto que veio à tona nessa semana uma bonita campanha do Avaí, time de futebol de Florianópolis, contra a marginalização dos imigrantes haitianos. Na última rodada do campeonato brasileiro, o Avaí disputou com uma camisa escrita Linyon, que significa “União” na língua crioulo, idioma falado naquele país e lançou um vídeo abordando o tema. Com uma chamada “Pode um ser humano ser menos humano do que outro?”, lançou ainda um belo vídeo retratando a campanha:

https://www.youtube.com/watch?v=hhSnqhmL7n8

Avaí com a camisa em homenagem aos haitianos em julho de 2015


Que a partir de agora o futebol esteja mais ligado à esperança do que às tragédias que os haitianos passaram ao longo dos últimos tempos. E que sejam bem vindos ao até pouco tempo atrás “país do futebol”.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Neneca e a morte do bife com batatas no futebol

 
Figura do Neneca no Futebol Cards (frente)
Foi com um misto de pesar e nostalgia que soube do falecimento de Neneca (Hélio Miguel, de batismo) ontem, 25 de janeiro de 2015, aos 66 anos, goleiro nos anos 1970 e 1980, com passagens vitoriosas por Londrina, Náutico, Guarani e Operário-MS, entre outros.

Nascido em Londrina, onde começou a carreira, Neneca desde o início destacou-se e acabou despertando interesse do América-MG em 1973, onde participou da melhor campanha daquele time na história dos Campeonatos Brasileiros, terminando em 7º lugar.

No ano seguinte, no Náutico, além da conquista estadual em 1974, passou incríveis mais de 18 jogos (1636 minutos) sem tomar gol, estabelecendo o recorde mundial (nos campeonatos cariocas de 1977 e 1978, Mazzarópi, no Vasco teria batido esse recorde em uma contagem polêmica, já que não se trata de jogos seguidos).

Mas foi no Guarani, em 1978, que obteve seu maior feito ao sagrar-se campeão brasileiro em um time do interior (feito inédito até hoje). Acompanhei essa trajetória de perto pois morava em Campinas e posso afirmar que mesmo sem ser bugrino, jamais esquecerei aquela escalação vitoriosa (a melhor da história do Bugre): Neneca, Édson, Mauro, Gomes e Miranda; Zé Carlos, Renato e Zenon; Capitão, Careca e Bozó.  Time de jogadores com nomes simples e apelidos, fato que certamente contribui para sua fácil memorização. No jogo decisivo de 1978, contra o Palmeiras, além de não tomar gols, Neneca teve participação direta no gol de Careca, dando o lançamento, como podemos constatar nesse vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=9aUmTxzr_Xs

 Guarani campeão brasileiro em 1978. De pé: Miranda, Zé Carlos, Mauro, Neneca, Édson e Mauro. Agachados: Capitão, Renato, Careca, Zenon e Bozó.

Posteriormente Neneca ainda teve passagens também gloriosas pelo Operário (MS) e Londrina, novamente, onde sagrou-se campeão paranaense de 1981 e retornou anos mais tarde já no final de carreira.

Poderia ser apenas mais um caso de ex-jogador que por doença ou outro motivo, vem a falecer, mas para mim em particular, esse jogador traz lembranças da época em que iniciei minha paixão por futebol na infância, quando poucos brasileiros jogavam no exterior e os salários, mesmo dos craques, não eram milionários. Tempos em que as camisas dos times, sem marcas, estampavam apenas o escudo em mal feitas costuras. Os últimos tempos “românticos” do futebol brasileiro.

Um dos símbolos daquele tempo eram as memoráveis figurinhas do Futebol Cards, que acompanhavam chicletes e estampavam de um lado a foto do jogador e do outro, uma simpática ficha técnica em que, entre outras informações, constava prato predileto e filmes memoráveis. Do então goleiro campeão brasileiro, seu prato predileto era um singelo bife com batatas. 
Figura do Futebol Cards com a ficha do jogador (fundo)

Enfim, Neneca representa uma época em que os jogadores eram reconhecidos por apelidos ou nomes simples e o futebol não tinha toda essa publicidade e marketing de hoje. Atualmente, com essa história de futebol ser visto com um produto, assim como os jogadores, este esporte acabou deixando sua essência de lado e pra mim, um retrato fiel disso é o sumiço de apelidos nos jogadores e a sua substituição por nomes e sobrenomes. Enquanto o Guarani de 1978 começava sua escalação com Neneca e finalizava com Capitão, Careca e Bozó; atualmente a simplicidade foi extinta também das denominações dos jogadores. Um triste exemplo disso é a atual base do São Paulo. Não sei se é influência de empresários já pensando no mercado europeu ou se é ideia isolada de algum dirigente, mas o tricolor que chegou a semifinal da Copa São Paulo disputada agora mesmo mais parecia lista de aprovados no vestibular do que de jogadores de futebol, com nomes como Lucas Paes, Welligton Cabral, Vitor Tormenta, Matheus Reis, David Neres, Gustavo Hebling, Lucas Fernandes e Leonardo Prado em sua escalação. Um festival de nomes e sobrenomes que dificilmente ficarão na memória do torcedor. A julgar pela lógica atual, Pelé, Zico, Careca não teriam vez. Teríamos que nos acostumar com Edson Nascimento, Arthur Coimbra e Antonio Oliveira. E no dia 25/01/2015, teria falecido o ex-goleiro Helio Miguel.

 
Obs: a rica história do Neneca está retratada, com uma locução formal que lembra velhos tempos, em vídeo disponibilizado no site do Londrina: https://www.youtube.com/watch?v=h6hZ-WZs8qM

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A pequena grande Samoa Americana e suas lições ao mundo

Jaiyah Saelua, entrando em campo pela Samo Americana 

Outro dia assisti ao filme-documentário “The Next Goal Wins” (http://nextgoalwinsmovie.com/), que trata da história recente da seleção de futebol da Samoa Americana, um pequeno pais (ainda que dependente dos EUA) na Oceania e que, até pouco tempo atrás ocupava o último lugar no ranking da Fifa.

Ficha técnica do jogo contra Australia
Tendo como ponto de partida o jogo disputado no dia 11 de abril de 2001, quando sofreu uma incrível derrota de 31 x 0 contra a Austrália pelas eliminatórias para a Copa de 2002, o filme retrata a luta para que sua seleção, formada por jogadores amadores, saísse da incômoda situação de ser considerada a pior do mundo. Desde o fatídico resultado frente à Austrália (jogo em que 21 dos 22 convocados não puderam representa-la por terem outro passaporte e acabou reunindo às pressas jogadores com cerca de 15,16, 17 anos) até as eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014, disputada no final de 2011, foram disputados 30 jogos e nenhuma vitória, com 12 gols marcados e 229 sofridos.


Após mais uma pífia campanha em um torneio da Oceania em 2010, a federação local decidiu contratar um técnico de fora que pudesse dar um rumo àquele time e chegar, pelo menos, a uma vitória. Em 2011, chegou Thomas Rongen, um holandês, até então técnico da seleção sub-20 dos EUA, único que se candidatou ao peculiar emprego.

O time começou a treinar de forma mais organizada visando às eliminatórias para a Copa de 2014. No dia 22 de novembro de 2011, na primeira fase das eliminatórias na Oceania, em Ápia, Samoa, a seleção da Samoa Americana entra em campo para enfrentar Tonga e após abrir dois gols de vantagem, leva um e já sem fôlego, consegue segurar o resultado, comemorado como se fosse um verdadeiro título. Para os desavisados, este jogo pode não representar nada, mas para a pequena Samoa Americana representou a primeira vitória daquela seleção e entrou para a história do futebol mundial. Após um empate no segundo jogo contra Ilhas Cook e uma derrota com um gol no último minuto frente à vizinha Samoa, a Samoa Americana pôde, mesmo eliminada, comemorar o fato de, pela primeira vez, ter jogado de igual para igual com seus adversários.

Veja os gols do jogo heróico jogo contra Tonga: 

O filme “The Next Goals Wins”, muito bem dirigido, consegue demonstrar esse heroísmo de seus protagonistas através de várias histórias individuais que estão por trás da epopeia deste verdadeiro exército de Brancaleone do futebol.

Pode-se destacar, por exemplo, o técnico Thomas Rongen, que passa a se identificar com aquele simpático grupo de jogadores e acaba encontrando naquela missão uma nova razão de viver após passar por um drama pessoal  ao perder uma filha em um acidente de carro e talvez, por isso, tenha decidido recomeçar a vida na longínqua Samoa Americana.

Outro que merece atenção especial é o goleiro Nicky Salapu .  Trata-se do mesmo que, 10 anos antes, tinha levado 31 gols da Austrália (e feito defesas importantes, diga-se) e convivia, desde então com esse pesadelo. Na tentativa de esquecer, ele muda-se para os EUA, mas acaba sucumbindo aos apelos para retornar ao selecionado de seu país, disposto a apagar o que ele considerava um vexame e reescrever a história.

Mas o maior destaque de toda essa trajetória fica por conta de Johnny/Jaiyah Saelua. Trata-se de uma jovem zagueira que foi o primeiro transexual a disputar uma partida de futebol oficial. Registrado como Johnny, teve que jogador futebol masculino desde os 15 anos e naquela vitória contra Tonga acabou eleita a melhor em campo. Antes desse jogo, já adotava o nome Jaiyah. Em entrevista ao site Mais Futebol, de Portugal, em dezembro de 2011, Jaiyat declarou:

A Samoa Americana, assim como outros países do Pacífico com cultura polinésia, aceitam os fa’afafine. São pessoas que nascem homens, mas que se sentem mulheres desde muito cedo. É algo aceite em quase todos os aspectos da sociedade, embora no esporte seja um pouco mais difícil”.

O filme citado emociona como a questão de ser fa’afafine (o que para leigos seria transexual) é totalmente natural por todos em Samoa Americana. Trata-se de uma não-questão, algo que não causa estranhamento entre os demais jogadores e torcedores locais. O técnico holandês salienta a importância dela para o ambiente do time em termos de respeito e união do grupo. E lamenta que isso não aconteça no resto do mundo: “Na verdade, tivemos uma mulher atuando como zagueiro central. Você consegue imaginar isso na Inglaterra ou na Espanha?”

Nas entrevistas de Jaiyah Saelua, fica muito evidente a sua felicidade em jogar em um ambiente familiar, em que se sente tão bem. Ambiente este que infelizmente ela não encontrou quando tentou jogar futebol no Havaí, onde foi estudar artes cênicas.

De fato, é de se emocionar que em um país em que seus jogadores buscam em campo nada mais do que jogar com dignidade, seja palco de uma história exemplar para o mundo ocidental, inclusive o Brasil de tantos títulos no futebol, mas que certamente ainda imaturo para lidar com questões de respeito às diferenças, como determinados candidatos deixam tão evidente.


Com essa história, a pequena Samoa Americana, de heróis como Jaiyah e Salapu ganhou definitivamente meu respeito e minha torcida. Que seja um exemplo para o mundo. 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O dia em que Pires e Mococa calaram o Maracanã

Mococa disputando bola com Carpegianni no meio campo (foto de Rodolpho Machado, in Placar nº 503). 

Passei minha infância, fase em que mais me envolvi emocionalmente com o futebol, entre o final dos anos 70 e início dos anos 80, período que coincidiu com a época das vacas magras para o Palmeiras.

Mas isso não significa que não houve nada que a torcida palmeirense pudesse celebrar naquela época.  E pra mim, um jogo em especial foi marcante e faço questão de lembrá-lo aqui como forma de homenagear o centenário do velho Palestra Itália.

No dia 8 de dezembro de 1979, o Palmeiras, dirigido por Telê Santana (último clube antes de assumir a seleção) entrou em campo no Maracanã para enfrentar o Flamengo em jogo que valia vaga na semifinal do campeonato brasileiro de 1979 (que contou com o regulamento mais esdrúxulo de todos os tempos, mas isso são outros quinhentos). Diante de um público de mais de 112.000 pagantes, teve pela frente o Flamengo de Zico, Adílio, Junior e Tita, que tinha conquistado dois títulos estaduais no mesmo ano (isso mesmo!) e se apresentava como favorito, afinal já era um esboço daquele que viria ser campeão mundial em 1981.  Pelo lado alviverde despontava jogadores mais jovens e menos renomados como Jorginho, César (não o “maluco”) e Mococa, acompanhados de alguns mais experientes como Pires, Pedrinho e Jorge Mendonça.

Dias antes, já prevendo um jogo decisivo em que o Palmeiras podia entrar com a vantagem do empate, Telê Santana foi categórico:

(foto de José Pinto, Revista Placar, 502)


“não pensem que para garantir o empate meu time vai se retrancar. Nada disso. Para mim, a melhor maneira de se chegar ao empate, sem passar sustos, é entrar para ganhar.” [1]


E em campo, o que se viu foi exatamente isso. Se considerando apenas a fama dos jogadores, o Flamengo era considerado favorito, dentro de campo o que se viu foi um massacre alviverde. Jogando com simplicidade, naquela tarde o Palmeiras dominou completamente o adversário, executou lançamentos precisos, toques rápidos e triangulações perfeitas.




Com Cantarelli batido, César, o 9 palmeirense perdeu este gol incrível, chutando no travessão. Podia ter sido mais (foto de  Ignácio Ferreira, in Placar nº 503, dezembro de 1979)

Ressaltando aspectos como o posicionamento do Pires, junto com Mococa na entrada de área; os deslocamentos laterais executados pelo Jorge Mendonça e pelo centroavante César  abrido espaços para os laterais Rosemiro e Pedrinho; as inversões dos pontas Baroninho e Jorginho; e as jogadas ensaiadas, a Revista Placar (principal meio de comunicação esportiva escrita naquela época) ressaltou o verdadeiro baile tático que o time de Telê Santana aplicou sobre o time rubro-negro, comandado pelo, até então, técnico da seleção brasileira, Claudio Coutinho. Vale a pena ver os melhores momentos dessa verdadeira aula de futebol. 

www.youtube.com/watch?v=B-3MkCZ3hNU

No final, uma agressão covarde do Beijoca (atacante flamenguista) acabou sendo um retrato do jogo em que a goleada categórica (4 x 1) foi apenas uma consequência diante da dimensão da superioridade palmeirense naquele dia. Eu, que estava naquele dia no Rio de Janeiro, lembro  não só do jogo, mas também da sua repercussão.  


Ficha técnica do jogo (Revista Placar nº 503)
Na semifinal, apesar do esforço, o time do Palmeiras não conseguiu superar o forte time do Internacional e acabou eliminado. Mesmo sem o título, em enquete feita com 221 jornalistas brasileiros ainda naquele mês, nada menos do que 197 indicaram o então técnico palmeirense Telê Santana como o melhor técnico brasileiro, credenciando-o para assumir a seleção brasileira no início de fevereiro de 1980. 


Se não serviu para levar o Palmeiras ao título, certamente aquele time deu uma contribuição fundamental ao futebol brasileiro ao servir para colocar o Mestre Telê Santana em justa evidência, culminando no brilhante trabalho frente à seleção após aquela a Copa de 1982. Valeu Palmeiras! O futebol brasileiro agradece! Fica aqui a imagem do primeiro gol (na falta de Youtube, Placar publicava os gols desta forma).
Primeiro gol em fotos de Ignácio Ferreira e Rodolpho Machado, in Placar nº 503.




[1] Entrevista à Revista Placar de 3 de dezembro de 1979.

domingo, 10 de agosto de 2014

Homenagem em dose dupla

Foto de Rodolpho Machado na revista Placar nº696, de 23 de setembro de 1983.

Na semana passada, no jogo no Maracanã contra o Goiás, o Fluminense prestou uma bela homenagem a uma das mais famosas duplas da história do futebol brasileiro que deu tantas alegrias à torcida nos anos 80: Assis e Washington (com direito a distribuição de máscaras deles para a torcida). O blog Futebol Sonoro aproveita para registrar também sua homenagem.

No início dos anos 80, quem dominava o cenário no futebol carioca e nacional era o Flamengo. Esse cenário mudou com a chegada de Washington e Assis ao Fluminense em 1983 após uma passagem vitoriosa de ambos pelo Atlético-PR, onde tinham se consagrado com um título estadual após 12 anos de jejum e levaram o time paranaense até a semifinal do Campeonato Brasileiro de 1982 (faltou muito pouco para não eliminar o Flamengo).

A chegada deles ao Flu ocorreu sem maiores alardes. O time carioca amargava anos sem conquistas e depositava suas parcas esperanças em contratações de jogadores menos conhecidos. Mas o time “deu liga”, a começar com a conquista da Taça Guanabara, que levou o time para a final do campeonato daquele ano. Em setembro de 1983, após a conquista da Taça Guanabara, a revista Placar já deu destaque a esta dupla com uma reportagem especial que iniciava da seguinte forma:

Um é paulista e o outro baiano, mas passariam perfeitamente por dois cariocas autênticos. Assis, 29 anos, e Washington, 23, chegaram ao Rio de Janeiro há pouco mais de dois meses e já assimilaram toda a malandragem que a cidade lhes podia ensinar. Juntos desde os tempos de Atlético Paranaense, eles combinam jogadas, armam esquemas particulares imprevisíveis e sabem como ninguém tirar partido da irritação do adversário. Resultado: conquistaram a Taça Guanabara defendendo um time, o Fluminense, que até eles chegarem estava totalmente desacreditado”.

A final do estadual foi disputada em um triangular com Bangu e Flamengo. Após um empate contra o Bangu, chegou ao jogo contra o Flamengo com a necessidade de ganhar para continuar na briga pelo título e eliminar o rival. O jogo seguiu empatado até os 45 minutos do 2º. tempo, quando Assis recebeu um lançamento de Delei, entrou na área e tocou na saída do goleiro Raul, fazendo o gol decisivo para o título do Flu. De tão marcante, a torcida tricolor passou a reverencia-lo com o canto “Re-cor-dar é viver...Assis acabou com vocês” (parafraseando a música “Recordar é viver, eu ontem sonhei com você”).  Vale a pena conferir a reportagem especial do Sportv sobre este jogo com depoimento de Delei (https://www.youtube.com/watch?v=w758fKWUGUc), assim como conferir o canto daquela torcida em jogo que comemorou o centenário do Fla x Flu (e presença de Assis): https://www.youtube.com/watch?v=RkuijwEqYSI.

Em 1984, novamente contra o Flamengo, Assis acabou repetindo a dose e o Flu saiu-se bicampeão (www.youtube.com/watch?v=0oqMQ_S8Bsg ).  Washington também costumava ser decisivo, como na final de 1985 (ano do tricampeonato) ao marcar um belo gol contra o Flamengo em jogo em que Assis estava de fora, contundido, jogo que mereceu uma reportagem especial na Globo, com relato do goleiro Paulo Vítor e o lateral Leandro, do Flamengo: https://www.youtube.com/watch?v=_4_s7cAOELs.

Como se não bastasse, nesse período a dupla – chamada de Casal 20 – levou o time ao título brasileiro em 1984 que veio em um empate sem gols contra o Vasco (após vitória de 1 x 0 com gol de Romerito). O Sportv fez uma reportagem especial de um jogo marcante daquela trajetória: a vitória sensacional na semifinal contra o Corinthians, fora de casa, por 2 x 0, com participação do Assis lembrando aquele jogo.

Enfim, entre 1983 e 85, aquele Fluminense conquistou o tricampeonato estadual e foi campeão brasileiro com um time que além do forte conjunto e do paraguaio Romerito (o craque do time), teve como um dos maiores símbolos o chamado Casal 20, totalmente identificado com o time e sua torcida.

Tal como foram unidos em campo, Washington e Assis acabaram falecendo em um curto intervalo de tempo (entre 25 de maio e 6 de julho), deixando um imenso pesar por parte da torcida do Atlético-PR e do Fluminense. Lembro que no dia em que Assis foi enterrado em Curitiba, simbolicamente caiu uma chuva torrencial. Até o céu estava triste.

Por tudo que construíram junto ao futebol, pelo que representaram principalmente para as torcidas do Atlético-PR e Fluminense, qualquer homenagem será pouca. Segue aqui o vídeo exibido no telão do Maracanã. É de se emocionar: